José Miguel Wisnik
EU QUE APRENDA A LEVITAR
O foco na ideia de mutação deve nos levar necessariamente à pergunta: de que mutação se trata e, se é assim, sobre que ponto de não retorno ela inflete? No texto-base de Adauto Novaes, a questão se define “como a criação de outro estado das coisas a partir da junção do Capital com a Técnica”. E é este o ponto que Eugenio Bucci tem conduzido para a sua anatomia da super indústria do imaginário – a espetacularização da política como entretenimento, guiada pela religião da mercadoria e turbinada pelas big techs a serviço de controles objetivos/subjetivos totais. Vladimir Safatledobra a aposta acusando na mobilização desses mesmos dispositivos totalizantes a emergência ostensiva de um fascismo global que se impõe como meio de gestão da crise do capitalismo e que se apresenta, ao mesmo tempo, como via “terapêutica” para a de composição do corpo social e para a crise psíquica de larga extensão que o próprio capitalismo produz.
A enrascada está, portanto, armada, e frente a ela eu diria: quando a situação é trágica, o melhor é não fazer drama. Razões para pes simismo há todas, mas entre todas, “demais de muitas”, trata-se de “abrir a cabeça para o total” (Riobaldo), sem nostalgia, regres são e retração diante daquilo que se apresenta
Para efeitos da nossa conversa, sinto a necessidade de que essas teses não sejam separadas daquelas apontadas por Luiz Alberto Oliveira, quando especifica outras consequências da imbricação da ciência com a técnica. Luiz Alberto se refere à capacidade das atu ais tecnologias de intervir e manipular componentes e processos em escalas infinitesimais que nos são ao mesmo tempo íntimas e longínquas, para muito além da nossa escala de apreensão. Quase tudo se torna suscetível de intervenção calculada (compostos quí micos, corpos orgânicos e não orgânicos, habilidades cognitivas e processos mentais, produção simbólica e linguagens). Decorre que nos tornamos manipuláveis ali mesmo onde a escalada do rastreamento generalizado pelos meios tecno-científicos foge ao nosso alcance perceptivo e pensante, embora nos englobe.
Mas é aí mesmo, também, que se abre a fresta de um vislumbre de mundos de outra ordem ou desordem, de um golpe de real diferen te daquele da super indústria do imaginário. Seguindo o próprio Luiz Alberto em sua conferência do ciclo passado, pudemos acompanhar por exemplo o reconhecimento de uma certa função poética na or ganização das formigas; pudemos saber das construções edificadas por certos marsupiais australianos com dejetos fecais de formato cúbico que, instaurando “marcos” territoriais, investem-se de um certo sentido cosmológico ali onde acharíamos que isso é uma ex clusividade humana; e, entre inumeráveis outros mundos, pudemos ter notícia do quanto somos feitos de uma nuvem galáctica de mi cro-organismos frente à qual o princípio da identidade seria quase uma miragem. A não coincidência de sexo e gênero, não é preciso dizer, é outra dessas decorrências. Não se trata de um exemplário de curiosidades pitorescas: é aí mesmo, onde todo chão falta, arras tando consigo princípios e fins, que tudo passa por um reposiciona mento ontológico. Esse reposicionamento ontológico é inseparável, por sua vez, de uma nova compreensão holística do mundo que re lativiza em muito a centralidade do humano (carregando consigo o universalismo autocentrado europeu).
Se tecnociência e capital arrocham o real capturando o imaginário, por um lado, por outro a ciência confina de algum modo com for mas mutantes de arte, em seu vislumbre de mundos (sinto algo por aí nas propostas de João Cezar, Pedro Duarte e Guilherme Wisnik). Osvaldo Giacoia acena, se não estou enganado, para uma unificação do campo que poderia advir de um diálogo produtivo entre heidegge rianismo e marxismo, ou entre ontologia e historiografia crítica (diá logo, aliás, que não é estranho à poesia, como se pode ver na inter pelação da Máquina do Mundo por Carlos Drummond de Andrade). Vale retomar e atualizar, acompanhando o gesto de Marilena Chauí (que amplia o arco temporal e problemático da questão), a velha ferida narcísica que nos traz até aqui numa verdadeira cascata de não retornos: assim como se revelou que o humano não ocupa o centro físico do universo (Copérnico), não tem uma forma fixa es sencial reputada à imagem e semelhança de Deus (Darwin), não é senhor da vida psíquica tal como se projeta na tela da consci ência (Freud), esconde motivações outras sob figuras ideológicas e morais (Marx e Nietzsche), ele é também o elo de passagem de um funcionamento maquínico que ultrapassa a sua existência ga nhando vida própria a partir dela: o corpo se torna um complexo de processos replicáveis e plugáveis; o espírito totalizante, longe do divino e da síntese valeryana, confunde-se com a energia em rede, e a alma, elo entre os dois, periga ser descartada.
Ao recensear marcos de momentos de não retorno na cultura hu mana, Marilena devolve a questão à escala dos tempos: há muito tempo que a humanidade vem sendo obrigada a mais uma vez e sempre cair na real, embora não caia nunca – e eis aí uma das amostras da loucura fundamental da espécie.
Dito isso quero trazer de volta, na minha conferência, um tema que apresentei na primeira versão de Mutações: a teoria de base psica nalítica heterodoxa d’Os Cinco Impérios, formulada por MDMagno – AMãe, OPai, OFilho, OEspírito e Amém. Naquela altura, a extrava gância não pareceu fazer sentido a quase ninguém. O que era dito por Magno desde os anos 1990 me parece, no entanto, ser reco nhecível no que vemos hoje. Resumindo drasticamente, o Primeiro Império, o da Mãe, está baseado no vínculo primário com a pari ção material da existência – vínculo cuja evidência física é o óbvio ululante (ou, se quisermos, o óvulo ululante). Já o Império do Pai é uma construção masculina, a invenção do monoteísmo que proje ta para o céu, ao custo da lapidação bíblica de mulheres, um Deus Homem sob o qual o reconhecimento primário com a mãe só se faz pela intervenção simbólica e secundária do Pai, no comando da força. Num terceiro passo, esse vínculo secundário ganha autono mia em relação ao primário na figura do Filho criado ex-nihilo, sem vinculação com descendências carnais, fazendo do filho direto do Pai, sem cópula com a Mãe, um correspondente da especificidade puramente simbólica do humano. É o Terceiro Império que engen drou as figuras da especificidade simbólica do humano, reconhe cível na construção das instituições do comum, dos princípios de equiparidade, dos direitos humanos e os códigos de regulação de desigualdades e diferenças de força. Estamos vivendo hoje, segun do Magno, a passagem turbulenta e mesmo duvidosa quanto à sua possibilidade de instauração, do Terceiro para o Quarto Império, o do Espírito, em que os códigos genéticos, físico-químico-biológi cos, informacionais e linguageiros, rastreados e operados a par tir do domínio do “minimíssimo grão” por “mi ou bi ou trilionários” (Caetano Veloso, “Anjos tronchos”), passam a funcionar desatre lados de seus suportes (id)entitários e a falar independentemen te deles. Seria a quase impensável assunção de uma humanidade não dependente dos vínculos originários de família, sem Pai nem Mãe. O Quinto Império, esse talvez propriamente inatingível, seria a frequentação do Cais Absoluto do que é e do que há – um cair no real não apoiado sobre a trindade Mãe, Pai e Filho, mas numa ar religião do originário puro.
A passagem litigiosa do Terceiro para o Quarto Império, funda mentalmente incerta, como já dissemos, está em curso em toda a sua tragicidade, tracionada por reações fundamentalistas, dis sipada pela banalização midiático-informática, elevada ao limi te do psicologicamente insuportável. Se acompanharmos a ideia do esquema, parece que o Terceiro Império se decompõe (senti mos isso na pele) enquanto o Quarto mostra a cara, mas acompa nhado de uma espécie de rebote complexo do Segundo (o Império machista da força, exercido sem o limite dos códigos simbólicos que regeriam seus usos, e do qual a ação trumpista é a manifes tação cabal): “Palhaços líderes brotaram macabros / No império e nos seus vastos quintais / Ao que reveem impérios já milenares / Munidos de controles totais” (Caetano Veloso, “Anjos tronchos”). Um índice dessa espécie de regressão do Terceiro para o Segundo Império no campo religioso, em reação a emergência do Quarto, é a tendência da pregação evangélica, apontada por João Cezar de Castro Rocha, a um cristianismo fundado mais no Velho do que no Novo Testamento, ao culto de Israel e ao “Deus dos Exércitos”, em substituição a Cristo. Parece-me ainda que o esquema deve ser pensado já não mais como uma diacronia milenar, na sua suces são, mas como uma sincronia em que os impérios estão envolvidos e conflagrados simultaneamente.
Em suma, proponho este esquema para pensar como um exercício desejável, senão imprescindível, de provocação e desafio fora dos eixos e das trilhas correntes, já que de mutação se trata.
Centro de Pesquisa e Formação
Rua Dr. Plínio Barreto, 285, 4º andar | Bela Vista – São Paulo/SP | CEP: 01313-020
Tel.: (11) 3254-5600
• Metrô: Trianon – Masp (700m) / Anhangabaú (2000m)
centrodepesquisaeformacao@sescsp.org.br | sescsp.org.br/cpf
Fundação Casa de Rui Barbosa
Praia de Botafogo, 190 | Botafogo – Rio de Janeiro/RJ | CEP: 22250-900
Tel.: (21) 3799-5938
• Metrô: Estação Flamengo (500m)
contato@rb.gov.br | www.gov.br/casaruibarbosa/pt-br
Fundação Getulio Vargas
Rua São Clemente, 134 | Botafogo – Rio de Janeiro/RJ | CEP: 22260-002
Tel.: (21) 3289-4600
• Metrô: Estação Botafogo (300m)
faleconosco@fgv.br | portal.fgv.br
© 2026 ARTEPENSAMENTO | WWW.ARTEPENSAMENTO.COM.BR | ARTEPENSAMENTOCULTURAL@GMAIL.COM
© 2026 ARTEPENSAMENTO | WWW.ARTEPENSAMENTO.COM.BR | ARTEPENSAMENTOCULTURAL@GMAIL.COM