Luiz Alberto Oliveira
HERMES EM SEU LABIRINTO
Um dos aspectos mais marcantes do desenvolvimento tanto da Ciência quanto da Técnica nos últimos séculos diz respeito a sua mútua imbricação – isto é, aos efeitos de retroalimentação que os avanços em cada domínio tiveram sobre o outro. Teorizações inovadoras levaram a instrumentos aperfeiçoados, que permitiram mensurações cada vez mais precisas, proporcionando por sua vez o apuramento dos modelos e conceitos, e da capo. Como resulta do desta incessante estimulação, as bases do mundo material tornaram-se simultaneamente mais íntimas e mais longínquas: conhecemos hoje as origens astrofísicas dos elementos químicos que nos compõem, e a todos os demais corpos, mas não dispomos de narrativas ou fabulações que permitam assimilar este conhecimento factual em um campo semântico propriamente humano. Nos laboratórios, sabemos como dividir um segundo em dezessete partes decimais; uma grandeza de tal modo minúscula não é apreensível por nossos sentidos mamíferos – de fato, não há sistema biológico conhecido que possa sequer remotamente explorar durações tão extremamente mínimas. O femtosegundo é assim um ente exclusivamente cultural – embora diga respeito à mais abis sal profundeza da existência física que pudemos até agora sondar, e permita antever aplicações técnicas cada vez mais bilionesimais.
O que distinguiria as atuais tecnologias daquelas de eras anteriores, portanto, seria não o poder de deslocar grandes massas - o que os antigos já faziam - mas sim a capacidade de intervir e manipular componentes e processos em escalas infinitesimais. A razão é que o funcionamento tanto dos organismos em seus ecosistemas quanto das intelecções em suas culturas têm fundamento operativo exatamente nestas escalas, de modo que todo tipo de com posto químico, sistema metabólico, aparato sensorial, habilidade cognitiva e produção simbólica torna-se doravante suscetível, em princípio, de intervenção técnica. Não admira, pois, que os próprios limites que empregávamos habitualmente para definir o mundo, a sociedade, e a nós mesmos, tenham entrado em acelerado desfazimento.
Em vista da potência transformativa de que essas tecnologias estão imbuídas, fica evidente que a categoria adequada para descrever as atuais circunstâncias histórico-planetárias não é mais a de crise – um espasmo ou fissura circunscrita a um dado território político ou epistêmico – e sim a de mutação, um desvio tectônico que globalmente refaz a dança dos continentes e reconfigura os percursos evolutivos. Corpos híbridos, intelectos sintéticos, artefatos linguageiros, são incontáveis as possibilidades de rearranjos materiais, vitais e conceituais que já se acham abertas. Jorge Luis Borges registra o acabrunhamento de Pascal frente aos espaços e durações infinitos que Galileu inaugurou (e Newton consoli dou), em vista da abolição, frente à infinitude, dos locais e momentos que sempre balizaram a experiência humana. Héstia, o centro, em toda parte, Hermes, o perímetro, em parte alguma: o que fazer quando não há de onde partir, nem para onde retornar, quando não há quando?
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