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Pedro Duarte

O SOBREVIVENTE: O PENSAMENTO ENTRE A FILOSOFIA E A LITERATURA

Há muitos anos, Adauto Novaes nos propõe pensar a mutação do mundo contemporâneo. Filósofos da Europa, como Bruno Latour, Jean-Luc-Nancy e Paul Preciado, também empregaram a palavra “mutação” em suas obras para caracterizar o momento que vivemos, embora em geral somente de passagem. Já agora, Adauto Novaes nos desafia a pensar que, diante ou dentro da mutação, não há retorno, ao contrário do que poderia ocorrer em uma mera crise. Ou seja, lamentos nostálgicos sobre o que perdemos serão sempre insuficientes para corresponder ao desafio que temos, pois se trata de algo irreversível.

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O problema é que a mutação envolve uma subtração da filosofia e da política, paralisando o pensamento na forma do cálculo previsível e a ação na forma do comportamento eficiente. Essa mentalidade tecnológica não diz respeito apenas aos instrumentos que usamos, ela fornece um entendimento do mundo ou, como dizia Martin Heidegger, um modo de desvelamento do ser. Por isso mesmo, entretanto, os versos do poeta romântico Hölderlin são por ele citados: “ali mesmo onde está o perigo, cresce aquilo que salva”. Não seria esta uma outra possível formulação do que se impõe para nós diante do “sem retorno”?

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Nesse contexto da mutação, por isso, as alternativas tradicionais e modernas – entre resignação e resistência, submissão e reação, alienação ou revolução – parecem aquém do “sem retorno” no qual estamos, o que nos força a encontrar um repertório de linguagem mais amplo para pensar criticamente e agir imprevisivelmente: por exemplo, como sugeriu a filósofa Isabelle Stengers, em uma “composição” com a mutação. Nisso, a poesia e a arte podem ser, como apontou o poeta Octavio Paz, formas de fundar uma filosofia do agora.

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Desde o começo da tradição do Ocidente, entretanto, filosofia e literatura foram separadas, sendo a expulsão dos poetas da cidade supostamente perfeita elaborada por Platão em A república o marco inicial dessa história. Dela, também não há retorno, ainda que se possa reconhecer, como fez Nietzsche, o que aí se perdera: uma sabedoria trágica. Quem sabe, contudo, possamos, entrando no perigo sem retorno da mutação, encontrar na relação entre filosofia e literatura as palavras que nos faltam para pensá-la, ou ao menos um caminho?

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Paul Valéry pedia que prestássemos atenção às imagens poéticas da filosofia e ao “ballet metafísico” que elas performavam. Ele acre ditava que filosofia e poesia tinham a mesma origem: o espanto; mas que, tradicionalmente, a filosofia tentara resolvê-lo, enquanto a poesia o desdobrava. Talvez, possamos agora buscar uma filosofia sensível ao espanto e uma literatura reflexiva com ele, encontrando na história não uma volta ao passado que foi, mas o contato com um futuro por vir.

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Pode ser que, com isso, o pensamento surja como um insuspeito “sobrevivente” no “sem retorno” da história, como Carlos Drummond de Andrade deixou escrito em versos que bem pode riam estar na base de uma filosofia do agora.

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Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples. Se quer fumar um charuto aperte um botão. Paletós abotoam-se por eletricidade. Amor se faz pelo sem-fio. Não precisa estômago para digestão.

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Um sábio declarou a O Jornal que ainda falta muito para atingirmos um nível razoável de cultura.

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Mas até lá, felizmente, estarei morto.

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Os homens não melhoraram e matam-se como percevejos. Os percevejos heróicos renascem. Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado. E se os olhos reaprendessem a chorar seria um segundo dilúvio. (Desconfio que escrevi um poema.)

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