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Ricardo Henriques

A VARIÁVEL CHAVE

Nossa história de naturalização da relação com a desigualdade expõe a erosão institucional como um fenômeno cumulativo. Camadas que se dobram sobre si mesmas gerando um processo de retroalimentação a partir da incapacidade de sinalizar caminhos para reduzir as desigualdades. O horizonte flerta com a possibilidadede um ponto de não retorno, de um processo irreversível como corolário da sombra social.

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Para mudarmos esse quadro, a educação é variável-chave na busca de soluções. Não é panaceia, nem suficiente. Mas qualquer projeto coletivo – nacional ou global – precisa considerar a educação nessa equação. Ela, como prática social, talvez seja uma das áreas mais afetadas por uma era de mutações ou de desconcerto permanente. Afinal, ela é essencialmente conservadora, pois é sua condição de possibilidade a existência de conhecimentos e comportamentos tidos como positivos e/ou úteis por uma coletividade. Ainda que a educação busque ser “emancipadora” para o indivíduo (ou mesmo para o coletivo), ela o faz tendo prioritariamente como objetos os conhecimentos (conceitos, sistemas, artefatos, valores) do passado.

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Quando tudo está em choque, sombrio, ou em mutação, como esperar de um campo essencialmente conservador que lidere ou embarque ativamente naquilo que deve ser, em alguma medida, novo? Por outro lado, como chegar a consenso dentro de uma coletividade sobre quais são os conhecimentos realmente relevantes para o novo, seja qual ele for?

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Nos últimos 25 anos, esse desconcerto vem se fazendo presente constantemente tanto na educação básica como na superior. Ambas têm sido criticadas por seu imobilismo ou pela incapacidade de lidar adequadamente com as revoluções tecno lógicas em curso – a internet, o digital e, mais recentemente, a IA generativa. Tentam incorporá-las, mas o fazem a um sistema antigo, de sorte que essas tecnologias – suas potencialidades e seus riscos – são objetos de tentativas de inserção e adaptação a modelos consolidados, logo não os transformam. Igualmente, os sistemas não são repensados a partir dessas tecnologias, dos valores que carregam ou das promessas que oferecem.

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Há uma sensação de reforma permanente, sempre sob a égide de novas tecnologias com potencial transformador, mas que, além de desigualmente distribuídas e utilizadas e de seus riscos inerentes, jamais cumpriram as promessas de seus promotores, seja em termos de democratização do acesso real à educação de qualidade, seja em matéria de maior proficiência dos estudantes. Ainda pior: conquanto essas tecnologias transformem valores, a educação, quando as emprega, não prepara os estudantes para vive-los ou resistir a eles.

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Os novos comportamentos produzidos pelas tecnologias digitais do imediatismo ubíquo também já começam a produzir discussões sobre seus efeitos no cérebro e nos processos cognitivos humanos: capacidade de concentração, tempo de atenção, aptidão ao silêncio etc. Temos também indicativos de que seu uso pode afetar habilidades e competências essenciais como a criatividade e o pensamento crítico.

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Todos esses elementos geram preocupação em educadores, eventual regulação estatal, mas de maneira geral continuam sendo adotados amplamente em todos os demais campos da vida, tornando a experiência educacional ainda mais exótica (e aborrecedora) para crianças, adolescentes e jovens. Tudo isso gera efeitos em termos de aprendizagem, engajamento escolar, aprendizagem, evasão escolar.

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Quantos anos serão necessários para proibir o uso de artefatos com IA dentro das salas de aula? Ou, talvez, para reinventar as aulas de sorte que IA não seja um obstáculo à cognição, mas antes um reorganizador dos processos pedagógicos (seria isso possível)? Por outro lado, se as promessas das tecnologias incorpora das ao ensino pouco se concretizam, outras transformações em curso causam efeitos negativos mais rapidamente.

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A IA, com suas promessas e riscos, é certamente a bola da vez no hype educacional (assim como a indústria com mais novos investi mentos hoje no mundo). Se, de um lado, ela pode facilitar o acesso a respostas prontas sobre o passado, e fazer descobertas rele vantes a partir do reconhecimento de padrões, como ela poderia contribuir para repensar os sistemas se ela depende exatamente dos atuais?

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A robotização com IA pode efetivamente fazer desaparecer inúmeros postos de trabalho, sobretudo aqueles de caráter técnico e baixa experiência, mas também tende a tornar mais valoroso as características ou capacidades essencialmente humanas. Mas de qual humano estamos falando? E que características são essas?

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Não há porque tentar listar soluções para todos os dilemas aqui levantados. Seriam, na melhor das hipóteses, transitórias e ludibriadas pela incerteza. Mas me atrevo a corroborar com ao menos uma certeza: a chave está na valorização da dimensão humana. Ela é que nos permite fazer conjecturas e fabular sobre outros mundos possíveis. Sem ela, não conseguiremos assegurar que inovações de todas as ordens sejam pautas por princípios éticos e direciona das ao bem comum numa sociedade cada vez mais interconecta da e interdependente, submetida a intensas e síncronas mutações.

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