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Renato Noguera

O COGITO DA MERCADORIA: O QUE RESISTE AO CÁLCULO?

Se a mutação não é crise, mas passagem irreversível a um outro estado das coisas, tal como propõe Adauto Novaes, talvez a per gunta decisiva não seja apenas o que mudou: quem pensa agora? Ou, mais precisamente: o que pensa através de nós?

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No mainstream do pensamento ocidental, o cogito ergo sum (penso, logo existo) cartesiano figurou durante séculos como um dos pila res da ontologia moderna. Na atualidade, existir é ser calculado, ranqueado, otimizado. Estamos diante de outra fórmula, silenciosa e operante: circulo, logo sou valorizado; sou calculável, logo existo. O que aqui denomino cogito da mercadoria não é apenas um conceito crítico do marketing ou do consumo; é a hipótese de que a mercadoria se tornou princípio de inteligibilidade do real. Não apenas trocamos coisas, nós passamos a pensar como coisas trocáveis.

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Se a sociedade disciplinar moldava corpos e a sociedade de controle modulava fluxos, como advertiram Foucault e Deleuze, tal vez estejamos agora diante de uma etapa em que o capital, fundido à técnica, não apenas controla, mas cogniza. O advento da Inteligência Artifical (IA) e da robótica trazem desafios que apontam para um ponto sem saída onde a obsolescência programada da mercadoria poderá tornar-se um dispositivo de regulação das próprias vidas humanas — uma nova etapa do necropoder, como sugere Achille Mbembe ao analisar as formas contemporâneas do capitalismo em que a reedição de regimes de exploração extrema volta a se tornar horizonte neoliberal. Ora, nesse contexto a técnica não escapa ao controle do humano; ela se torna o lugar onde o capital pensa. Não se trata mais apenas de vigilância ou gestão da vida, mas de uma ontologia informacional na qual o valor precede o vínculo e a métrica antecede o sentido.

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Nesse cenário, a mutação é também cosmológica. O mundo técnico capitalista é estruturalmente cosmofóbico: teme o múltiplo, reduz a pluralidade dos mundos à equivalência geral do mercado, transforma diferença em dado e território em recurso. Em contrapartida, tradições cosmofílicas, como nos ensinou Nêgo Bispo, não organizam o mundo a partir da equivalência, mas da convivência. A mutação em curso não é apenas tecnológica; é a disputa entre modos de habitar o mundo. Uma guerra cosmológica: de um lado, a máquina de equivalência que só reconhece o que pode ser convertido em valor; de outro, as resistências que insistem na incomensurabilidade — naquilo que não entra no cálculo.

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Mas há um ponto ainda mais delicado. A mutação técnica e capitalista coincide com uma mutação afetiva. Se o humano se torna obsoleto, como sugere uma certa leitura contemporânea, o que se torna obsoleto não é o corpo biológico, mas a experiência do vínculo não mediado pela troca. A cosmopercepção do mundo, tal como argumenta Oyèrónkẹ Oyěwùmí, se estreita quando toda relação tende a converter-se em valor de mercado. Oyěwùmí mostra que o pensamento ocidental organizou a realidade a partir do privilégio da visão: o mundo torna-se aquilo que pode ser visto, classificado e hierarquizado pelo olhar. Quando o real é reduzido ao que se vê, o corpo passa a funcionar como matriz das categorias sociais e a diferença torna-se imediatamente legível como hierarquia. Em contraste, a ideia de cosmopercepção indica um modo de habitar o mundo que não privilegia apenas o olhar, mas uma articulação de sentidos e relações. Talvez seja por isso que, na era das telas, quando o mundo parece caber na palma da mão e a experiência se reduz à superfície luminosa dos dispositivos, a vida social corre o risco de tornar-se cada vez mais uma economia de imagens e métricas, onde ver, medir e calcular substituem lentamente sentir, afetar e ser afetado.

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Por isso, convém recolocar uma questão aparentemente deslocada: o que resiste à equivalência geral? Se o cogito da mercadoria organiza o mundo pela troca, o amor, aqui compreendido como prática de reconhecimento do outro como fim, como potência de aliança, tal como sustenta bell hooks, introduz uma fratura nesse regi me. Amor não como fuga, mas como contra-dispositivo diante desse jogo perverso sem retorno, no qual a convivência tende a morrer sempre que não possui valor de mercado.

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Propor um campo afetivo inabitável para a IA e a robótica faz da arte de amar, nos termos de Erich Fromm, não um retorno a fundamentos perdidos, mas a invenção de relações que não se deixam reduzir à lógica do preço.Pensar as mutações hoje talvez implique deslocar a pergunta da catástrofe para a respiração: o que ainda nos permite respirar em um mundo que se organiza como cálculo? Se o capital-técnica institui um novo regime de verdade, talvez seja preciso criar conceitos capazes de recolocar o vínculo, o cuidado e a pluralidade dos mundos como problemas ontológicos e não apenas morais.

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Entre o cogito da mercadoria e a respiração compartilhada da mesma atmosfera, isto é, a experiência da vida sem mediação dos aparatos do mundo técnico-captialista, joga-se o sentido do que ainda ousamos chamar de humano. Não se trata de retornar a um humanismo perdido: o sem retorno é irreversível. Trata-se de in ventar, na própria passagem sem volta, modos de existência que não se deixem reduzir ao preço. A mutação é o campo de batalha; a respiração, o que ainda pode mudar de ritmo. Porque as máquinas não respiram.

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