FRÉDÉRIC GROS
FOUCAULT E A ANARQUIA
Celebramos em 2026 os cem anos de nascimento de Michel Foucault. O filósofo francês é considerado como um dos mais potentes pensadores do Século XX e um dos que nos ajudaram a pensar as grandes mutações do Século XXI.O trabalho de Michel Foucault fascinou seus leitores tanto quanto os preocupou. De fato, desestabiliza, porque é inusitável. O trabalho de Foucault pode se enquadrar ao mesmo tempo na filosofia, no romance, na história, nas ciências humanas, no teatro. Rompe todas as fronteiras disciplinares e sempre perguntamos ao autor: mas, enfim, de onde você está falando, de onde você escreve? De fato, a experiência é perturbadora ao ler sua História da Loucura, ao ler a Vontade de Saber, temos a impressão de perder nossos pontos de referência como leitor. Há algo de profundamente anarquista nessa escrita que perturba nossos hábitos , e é essa dimensão que gostaria de explorar. No entanto, Foucault nunca dedicou em seus livros longos desenvolvimentos aos grandes teóricos anarquistas (Proudhon e Bakunin estão ausentes de sua obra escrita, mesmo que ele os conhecesse, pois há uma série de fichas de leitura de dicadas a eles). No entanto, deve-se notar a invenção por Foucault de um conceito curioso: a anarqueologia, que ele construiu em sua aula proferida no Collège de France em 1980 para dizer que os poderes nunca se baseiam em um fundamento eterno, mas surgem na frágil história dos homens.
A pergunta que gostaríamos de fazer seria entender se é possível construir um conceito filosófico de anarquia através das três grandes dimensões em que a obra de Michel Foucault se desdobrou e que Gilles Deleuze sistematizou: o Conhecimento, Saber, o Eu. O desafio de Michel Foucault consistiu, em primeiro lugar, em enfraquecer a Razão como princípio sólido do nosso pensamento, a fonte de nossos conceitos mais seguros. E se a filosofia precisasse ser sustentada por um impulso de respiração, uma energia, uma liberdade que lhe permitisse se reinventar e que pudesse levar o nome de Loucura, desde que não a reduzisse a doença mental? Esta questão anarquista, Foucault também a põe no governo dos homens: é possível pensar no poder sem invocar imediatamente o princípio de uma autoridade legítima, a necessidade de um estado soberano? Essa questão é tanto teórica quanto prática: teórica porque se trata de livrar a filosofia de sua referência obrigatória ao Estado assim que se trata de pensar o poder; prática, porque se trata de determinar se a luta realmente sempre precisa se apoiar em princípios ou estabelecer ideais. Finalmente, o pensamento de Foucault sobre os princípios de subjetivação faz surgir, além da anarquia epistemológica e da anarquia política, a questão de uma anarquia ética: como descrever uma subjetividade livre de todos esses caracteres de fundamento, identidade, substância que a filosofia sempre emprestou sobre o tema?
Esse anarquismo filosófico de Foucault, que reivindica a liberdade de pensar como o que só deve nos autorizar a filosofar ainda, nos permite enfrentar a grande e vertiginosa questão que hoje se põe à humanidade e que não é mais: como evitar a catástrofe, uma vez que ela já está aí; mais: como podemos nos salvar na catástrofe?
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