Luiz Camillo Osorio
MUTAÇÕES DA CRÍTICA DEPOIS DO FIM DA ARTE
Sem retorno é uma das formas de responder àqueles que se lastimam do esvaziamento do espaço da crítica. Os critérios de ajuizamento da arte vacilam há décadas. Não se trata, entretanto, de assumir a falência da crítica, mas apontar para a necessidade de se repensar sua tarefa depois que vimos multiplicarem-se as narrativas históricas que constituem as formas de experienciar o que compreendemos como arte.
Em uma longa conversa entre Hal Foster e Benjamin Buchloh, publicada recentemente em livro, há um momento em que eles se interrogam sobre seus repertórios para lidar com a cena artística atual. Buchloh, de forma corajosa, explicita sua impotência: “Por alguma razão sinto-me incapaz, apesar de me esforçar, de sus pender meus critérios para enfrentar a produção artística, tanto local, como global. Sigo fazendo as mesmas perguntas, comparando tudo com meus “deuses” artísticos: será que estão à altura de Duchamp, de Mondrian, de Warhol? E daí me vejo como esse homem branco arrogante, um fóssil mesmo, que não percebe que esses critérios não dão mais conta de tudo.”
Essa dificuldade é real. Não trabalhar o problema da crítica hoje é recusar os impasses do presente. Em 1968, numa conferência no MoMA, Leo Steinberg colocava também como tarefa pensar outros critérios para a crítica – para além dos parâmetros formalistas de Clement Greenberg, hegemônicos àquela altura. Esta busca tem sido uma constante do juízo crítico desde Baudelaire, mas sempre tendo em vista uma narrativa histórica englobante. Isso se desenvolvia paralelamente à questão da autonomia da arte, ou seja, de como assumir uma relação com o mundo que fosse acima de tudo produtiva.
Não obstante a vasta gama de discussões acerca da relação entre arte, autonomia e política, é possível afirmar que, ao longo do século XX, a política da arte esteve vinculada à potência da própria obra e não às características do artista. Unindo atitude crítica e autonomia da arte, surgia a imaginação enquanto faculdade emancipatória, que não reproduz o instituído, mas forja o não sabido.
Mais recentemente, a inscrição identitária do(a) artista mobilizou novas narrativas visuais e outras demandas poéticas. Tal diversidade de corpos convoca outros modos de ser para as obras e abre modos de sentir heterogêneos. Como incluir estes deslocamentos, sem que isso implique retomar uma dinâmica representacional para a arte, que engessa a dimensão subjetiva da experiência estética – lugar por excelência da imaginação produtiva?
Diante da necessidade de repensarmos a relação entre obra, autoria e autonomia surgem algumas questões: como pensar o engajamento identitário do/da artista sem abrir mão da abertura significante da obra? Como repensar a possibilidade de um(a) espectador(a) emancipado(a) para além do reconhecimento ético e político dos lugares específicos de sentir e de fala? Como trabalhar a negociação e o atrito entre universos de sentido que pare cem muitas vezes impossíveis? Sem enfrentarmos os riscos destas “zonas de contato” entre mundos heterogêneos, fica remos reféns da disjuntiva improdutiva entre a adesão vazia ou a recusa cega.
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