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Carlos Antônio Leite Brandão

UMA ANATOMIA DO SÉCULO XXI: O HUMANO EXILADO DO HOMEM

“Tis all in pieces, all coherence is gone.” (DONNE, John. Uma Anatomia do Mundo. 1611

Tudo despedaçado, inclusive o espaço, o tempo, o mundo e até o corpo. Todas as certezas foram suspensas e desconfiamos de qualquer coerência, por mínima que seja. Isso torna simpáticos o século XXI e o XVI, que A. Hauser definiu como “maneirista” e colocou no reverso do Renascimento. O ser humano moderno nasceu destes sentimentos de fragmentação, rupturas, descentramento, alienação e estranhamento diante de um universo tornado heliocêntrico e infinito e expressos por Michelangelo, Shakespeare, Cervantes, Caravaggio, Pascal e Donne, dentre outros. Abalado por este universo, restou-nos infinitizar a subjetividade (Cassirer), mergulhar no páthos interior e começar a “dan gerosíssima viagem de si a si mesmo” (Drummond), do homem até ao humano encerrado nele e ainda desconhecido. Não nascemos humanos, mas podemos nos tornar mediante a cultura (Cícero). A tarefa do século XVII foi superar esse trauma do homem exilado do cosmos e propor as sínteses e sistemas modernos que providenciaram uma nova coerência em todos os campos, desde a religião e a política até à arte e a filosofia, como a metafísica do humanismo cartesiano e o Barroco. Cinco séculos depois vemo-nos novamente sem retorno e sem saída diante da metafísica tecnocientífica que avassala a contemporaneidade. O exílio, agora, não é mais diante do cosmos e da natureza que nos rodeiam, mas diante daquele humano no qual mergulhamos no século XVI. Caímos no abismo “entre nós mesmos e aquilo que somos”, como Paul Valéry sugeriu em um dos seus Cahiers. Não há como retomar a coerência perdida. O máximo que podemos é prantear sobra a sua tumba para ver se sobre ela nasce uma flor. Isso significa inventar uma coerência nova “sob a sombra da antiga” e colocar em cena uma terceira metafísica, que Donne qua lificaria de amorosa ou, na falta de epíteto (ou epitáfio) melhor, de poética e ficcional, uma metafísica da memória e do sonho, que Valéry supunha reunir um todo que fora esfacelado. Ela pode soar estranha, mas o humano tornou-se “estranho”, quase um estrangeiro ou intruso no meio deste século XXI. “Nada do que é humano me é estranho” (Terêncio). Proponho trabalhar, portanto, em dois estágios. O primeiro dedica-se a avaliar algumas rupturas centrais do século XXI e em outras épocas que julgávamos também “sem retorno”. O segundo especula em torno desta ter ceira metafísica e os modos de conferir, se isto ainda for possível, uma nova coerência ao espaço que foi fragmentado, ao tempo que foi esmigalhado e ao humano que se encontra exilado do ente que hoje supomos, tentamos e fabricamos ser.

Roteiro hipotético para desenvolvimento da conferência e do texto futuros

Introdução à alienação frente ao mundo sob a metafísica tecno científica e a atualidade do verso de John Donne, “toda coerência foi perdida”:

- o exílio atual do humano e o estranhamento dele diante de nós mesmos, os homens. Tornamo-nos homens subtraídos do huma no, tal como a cidade tornou-se uma urbe ou um urbano subtraí do de urbanidade.

(Exemplos: alienação do espaço próximo por causa do dispositivo celular (nunca estamos onde corporalmente estamos), aprofundamento dos abismos territoriais, culturais, econômicos e sociais, fragmentação e pulverização do tempo em instantes desconexos (presentismo, instantaneísmo), submissão da inteligência humana e a analógica à artificial e digital), esvaziamento dos uni versos e dos órgãos e instituições que visavam construir coerências e consensos (ONU, parlamentos, assembleias, constituições, leis, etc.), o relativismo tornado radical (tal como o intransponíveis juízo de gosto pessoal)

- Todas as certezas foram suspensas ou canceladas, mesmo as de que a terra é redonda e de que as vacinas são boas. Os consensos e acordos não são mais construídos, hoje, mas são prévios, estabelecidos de antemão (tal como em tribos, redes sociais, etc.) e impermeáveis aquilo que difere deles.

- O falso e o verdadeiro trocaram de lugar. Os vícios viraram virtu des e as virtudes vícios (Oscar Wilde).

- Vivemos a dessacralização do humano, tal como o universo foi dessacralizado e emudecido no século XVI (como em Durer ou em Hamlet e Romeu Julieta). Já século XVII, Shakespeare e Padre Vieira em sua História do Futuro e seus cometas talvez tenham sido os últimos que o escutaram falar alguma coisa. Vico? Newton? Tycho Brahe?). Depois de o divino ter sido dessacralizado e de a natureza ter sido profanada, agora é o momento da dessacralização, do desencantamento e da banalização do humano, a fim de que o ente humano tente – de alguma forma e tal como os replicantes de Blade Runner – reequilibrar-se com o mundo, com o planeta e com o ambiente ao seu redor, por mais decrépito, em vias de destruição e tomado por guerras e necrofilias sublimes que nos seduzem tal como as anomalias e o grotesco seduziram o século XVI. A este ambiente parece corresponder a subjetiva “bélica” e armada que Safatly viu sendo edifica em nós, uma subjetividade desencantada e pouco provido de fala, portanto.

Retornando (o “sem retorno” em looping)

- Mostrar que o sentimento de “sem retorno” é correlato ao sentimento de “sem saída” (no way out), que ambos emergiram for temente em outras épocas – como no XVI, no advento da filosofia na Grécia Antiga, com Savonarola, no milenarismo, nas seitas apocalípticas – e que ambos têm uma história. Convém, portanto, posicionar tal sentimento atual do “sem retorno” diante da sombra desta história ou, como diz o texto do Adauto, “na sombra das ideias”.

- Remissão ao século XVI segundo Arnold Hauser (Maneirismo) e sua simpatia com o século XXI (Neomaneirismo?) em aspectos tais como: exílio, alienação, estranhamento, descentramento, perda de toda coerência (Donne), perda da similitude e semelhança das coisas entre si, com as palavras (Foucault) e com as percepções imediatas do humano, um humano dilacerado por conflitos consigo mesmo, com o cosmos (Dûrer, Shakespeare, Cervantes, Michelangelo) e entorpecido pelo aparato técnicocientífico, farma cêutico, burocráticos, etc.

- Visão do mundo como labirinto e sem saída (Gustav Hocke, Piranesi). Filiação entre tal período e o contemporâneo (como as sugeridas por G. Dorffles e Omar Calabrese)

Rupturas do tempo, do espaço, da história, das imagens e das semelhanças:

- As atuais ruptura do tempo, fragmentação das informações e descontinuidade da história e da memória tal como a que ocorreu no “homem do nada” da época do rádio e do florescimento do nazismo, segundo Max Picard.

- Correlata a isto, a perda de horizontes e do Princípio Esperança (Ernst Bloch): o paradigma da árvore e do organismo deu lugar ao do cristal inorgânico e sua rigidez, fixidez e imobilismo. O humano perdeu sua plasticidade, assim como o seu cérebro analógico submeteu-se ao procedimento digital da IA. Tornamo-nos cada vez mais impermeáveis, a contrapelo das células de que somos formados.

- Presentismo ou instantaneísmo como impedimentos de fazer mos “constelações” (Benjamin) entre tempos, entre passado-pre sente-futuro, entre as coisas e os fenômenos: cancelamento da episteme das semelhanças (Foucault) que deu origem ao método moderno de conhecimento baseado na dedução e na indução.

- Tal método “humanista”, “antropocêntrico” ou “clássico”, tal como a metafísica clássica segundo Heidegger, vai do conceito para a imagem, e é isto que está interditado atualmente ou perdeu a sua hegemonia. É preciso investigar qual a via atual da construção do sentido – num mundo panescópico ou episcópico – para tentar fazer nela trafegar outros conteúdos. Esta via, como vejo preponderar na política e em Maquiavel, é a que principia pelas imagens e das formas aparentes até chegar ao sentido e ao conteúdo que delas emergem. É preciso passar mensagens humanistas de maneira dissimulada por esta via, tal como a mensagem republicana era transmitida de forma dissimulado na própria fortaleza do tirano (Alberti)

- Alternativa metodológica: em vez da dedução, a “comparação”, a analogia e a metáfora, como em Leonardo da Vinci ou Shakespeare, ou a “alegoria” (como W. Benjamin viu ser a alternativa possível no mundo fragmentado da modernidade em A Origem do Drama Barroco Alemão)

 

- O impressionismo, a fenomenologia e pedagogia de Leonardo da Vinci, Calvino e Merleau-Ponty: “estar no mundo”, “experienciar o mundo”, “reaprender o ver o mundo” e “compor o mundo em imagens” (como através da pintura) é o território primeiro a ser cultivado.

- Ao contrário da metafísica ou procedimento “clássico” ou “humanista” que ia dos conceitos para as imagens sugere-se o procedi mento “barroco” que vai das imagens ao conceito. O texto primário são as formas e as imagens – onde o sentido está prenhe em potencial, mas não determinado e fixado previamente – e não o dos conceitos e ideias prévias.

O neobarroco à frente:

O século XVI, o Maneirismo era um século cujas certezas passadas e presentes foram todas suspensas e que aguardava as novas sínteses e sistemas (que viriam a ser fornecidos pelo século XVII) para o homem voltar a pisar sobre o palco do mundo (pois no século XVI puxaram o tapete debaixo dele e ele ficou dando cambalhotas no ar). De maneira similar, o nosso século XXI perdeu os fundamentos e qualquer ponto arquimediano de onde alavancar e mover o mundo. Esta falta de apoio é o que caracteriza o fim da modernidade para Gianni Vattimo. Pode-se supor que o ente humano contemporâneo aguarde novas sínteses e sistemas para que o ser humano volte a pisar neste planeta, sejam eles bons ou ruins. Uma das sínteses propostas e implementadas no século XVII, por exem plo, foi a do absolutismo. A “democracia selvagem” (Leffort) po deria ser uma alternativa para nós? A físico-matemática moder na foi outra síntese providenciada por aquele século para a sua natureza? A ecologia seria a nova síntese e o metarrelato a pre sidir o relato da natureza e da ciência? O Estado Nacional e a ci dade-capital foram sínteses providenciadas pelo século XVII para a política e a geopolítica? A síntese contemporânea seria o plane ta Terra como um todo? Como voltar a dar coerência à fragmenta ção do mundo e das informações estocásticas e sem verdade das redes, da IA, etc. que nos fazem reeditar “o homem do nada” em nós mesmos, hoje? Num tempo onde a difusão e a engenharia do caos por toda parte tornaram-se procedimentos para a construção do fascismo, de uma barbárie soft e hi-tech e de um tecnofeuda lismo que nos avassala, seria importante cunhar um cosmos, uma organização cósmica mundana, uma coerência social, política uni versal, tal como pretendiam as antigas internacionais socialistas e o marxismo. Acho que não passou o tempo disto e Marx, Alberti e Maquiavel têm muito a nos dizer sobre isto hoje, como a respei to da alienação contemporânea e da importância da virtù ser im plementada no meio de um ambiente corrompido, o que a demo cracia liberal vigente oblitera (pois é uma democracia desprovida de república).

As críticas ao conceito e ao logocentrismo. Rupturas e novos mé todos e metafísicas:

- A crítica de Momus a Gelasto, em Alberti (Momus) e a proposta de priorizar a experiência direta do mundo e da construção de formas e imagens enquanto “experiência” do real, e não discursos verbor rágicos, escolásticos e logorreias sobre o real.

- A crítica ao procedimento socrático e filosófico apoiado em conceitos, sofismas e “palavras lábeis”, mas desprovidas da experiência, do construir e do fazer: ver a crítica de Eupalinos a Sócrates e a defesa do pensamento “arquitécnico” e operativo sobre o especulativo e inoperante, em Paul Valéry (Eupalinos). Mas tais imagens devem ser ordenadas, domesticadas com violência, critério, prudência, leis e razão, tal como faz o arquiteto. Não são imagens a esmo, frutos da inspiração das musas. São imagens construídas com método, do qual falarei a seguir.

- Das imagens e da imaginação ao “pensamento por imagens”, e não mais por “conceitos”, com proposto por Italo Calvino (“visibi lidade” em Seis Propostas para o Próximo Milênio) e exemplifica do pelos desenhos de Leonardo. Tal “pensamento por imagens” é também o que passou a presidir na arte e na arquitetura barroca, ao contrário do renascimento e do clássico, onde o conceito e as leis matemáticas presidiam as formas. No Barroco, o significado e o sentido vão das formas ao conceito. A estratégia do pensamento, da arte e da arquitetura humanista ou clássica (e da ciência moderna?) é fazer o sentido e o significado irem do conceito para as formas e para as imagens. Num mundo dominado pelas imagens, esta última via perdeu a preferência. É preciso usar a via barro ca para transmitir ideias, conteúdos e conceitos, mesmo que de forma disfarçada. Ou melhor: é preciso constituir “conceitos imagéticos, imaginantes, imaginíficos”, capazes de suscitarem imagens e fazerem constelações com elas.

Em busca de saídas, mas sem retornar, pois não há retorno:

- A fé nas imagens e na experiência radical do real (Leonardo): tra uzir o que seria, hoje, um pensamento mais por imagens (Calvino e a visibilidade) do que por conceitos, um caminho prospectivo que parta da imagem, da forma, da imaginação e da sensibilidade e daí prossiga para a elaboração de um novo repertório conceitual.

- A constituição de uma terceira metafísica (não sei bem qual o nome dar a ela: do sonho, da memória, poética, como sugerido por Valéry) adequada à tornar coerente, mas em novas chaves, aquilo que somos e o humano, se isto for possível e desejável diante da voracidade do capitalismo e do poder em um mundo recolonizado, tal como era o dos séculos XVI e XVII. Tal metafísica surge como alternativa possível às duas que a antecedem: a humanista ou clássica, a qual deu lugar à hodierna metafísica tecnocientifica e à alienação do humano, como previsto por Heidegger.

- Ir em busca do que há de luz nas sombras e no sombrio (como nas pinturas de Rembrandt, Caravaggio, Ticiano e outros), pois é isto o que dá relevo, textura e encantamento à realidade vivida, os quais são perdidos tanto nas trevas quanto no excesso de luz, de promessas e de fogo-fátuas do universo telemático e belicista.

Conclusão: o “homem ao termo” (Affonso Ávila), o homem em busca de saída para o final de linha aonde ele parece ter chegado subtraído do humano: a invenção, a memória e a exegese como meios de adivinhar o futuro (tal como em História do Futuro, de Vieira), de resguardar a lembrança do humano (tal como a cidade hoje só sobrevive na memória) e de tentar saídas para este tipo de homem que parece ter chegado ao termo. Tal como Hegel previu a morte de um tipo de arte, mas não da arte em si mesma, um tipo de homem morreu e nós parece sermos os últimos represe tantes dele. Mas o humano em si mesmo, não deve ter morrido, ainda. Depois que o universo foi desencantado no início da idade moderna, nós não conseguimos recanta-lo depois. Desencantado o humano, se esta hipótese for válida para a contemporaneidade, nós saberemos reencanta-lo depois. Ou melhor: agora? Como? Poesia, contos de fadas, novas internacionais socialistas? O humano também chegou ao seu termo diante das biotecnociências, da IA, etc.? A subjetividade humana ficou encantada depois que o cosmos foi desencantado e emudecido pelo século XVI. Qual seria o objeto do nosso novo encantamento depois de ela ter sido de sencantada agora. Com o que o homem se reequilibraria agora, no caso de ele ter sido subtraído definitivamente do humano?

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