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Helton Adverse

O TEMPO DO IRREVERSÍVEL. TOTALITARISMO E REVOLUÇÃO.

No canto XXVI do Inferno, Dante retoma a antiga história da desventura de Ulisses e seus companheiros. Impelidos pelo desejo de conhecer novos mundos, eles ultrapassam as Colunas de Hércules (o estreito de Gibraltar), ou seja, os limites do mundo conhecido, o ponto a partir do qual não é mais possível retornar. E pagam preço alto por sua ousadia. Pouco depois de deixarem para trás as ditas Colunas, ao se aproximarem de uma montanha “escura e alta”, o navio é destruído por um redemoinho, afundando no mar revolto junto com Ulisses e todos os tripulantes (vv. 136-9)22. Esta história não faz parte da Odisseia. É uma contribuição de Dante às inúmeras narrativas pós-homéricas que enriqueceram as jornadas desse herói com novas aventuras e inventaram outros destinos que aquele da morte pacífica ao lado de sua amada Penélope. Se a narrati va de Dante se insere em uma tradição que remonta à antiguidade clássica, ela introduz algo que é profundamente inovador, a ponto de alguns comentadores nela enxergarem o anúncio do mundo moder no ou, ao menos, o sinal inequívoco de que o mundo clássico teria soçobrado junto com o navio de Ulisses23. De minha parte, prefi ro ler esse canto dantesco não à luz de um debate filosófico ou cos mológico, mas a partir da dramatização da liberdade aí encenada. O desejo de Ulisses de ultrapassar os limites das Colunas de Hércules, o enfrentamento do ne plus ultra (a inscrição latina, su postamente gravada por Hércules nas Colunas, que poderia ser traduzida por “nada há além” ou “não ir além”, cria um novo es paço para a ação humana, pleno de riscos porque o navegador – o explorador – não dispõe de referências seguras para se guiar (onde ele iria buscá-las?). A causa do perigo, porém, é também aquela da produção de um novo sentido, um novo significado e um novo re dimensionamento da existência humana. Certamente, a grande za da poesia de Dante se verifica na sensibilidade a essa nova aven tura. Valeria lembrar que a razão pela qual Ulisses se encontra no Inferno não é desconsiderar o ne plus ultra, mas sua habilidade em ludibriar, seu apreço pela fraude que se mostrou da maior utilida de para os gregos quando da invenção do cavalo de Troia, razão pela qual ele e Diomedes se encontravam unidos em uma mesma flama. O naufrágio de Ulisses, sua vulnerabilidade às forças do mar, seu des parecimento nas águas, não são a punição de seus pecados, mas a chancela de uma outra existência, a franquia para uma nova vida, atingida somente por aqueles que desprezaram o ne plus ultra.

22 Dante Alighieri, A divina comédia. Trad. de L. Eugenio Mauro. São Paulo: Editora 34, 1998, pp. 175-80. 23 A respeito, ver o excelente livro de Jean-Louis Poirier, Ne plus ultra. Dante et le dernier Voyage d’Ulysse (Paris: Belles Lettres, 2016), ao qual devo muito.

Uma nova liberdade se instaura, portanto, no coração do ser humano, no modo como ele se relaciona com os outros, consigo mesmo e com o mundo. Seguir adiante do ne plus ultra dará origem a uma nova partilha entre o permiti do e o interditado, entre o conhecido e o desconhecido, mas, acima de tudo, é um alargamento do horizonte dos possíveis. Um novo desafio se impõe, uma nova aposta e um novo dilema, que exigirão a mobilização de todos os recursos humanos, a arregimentação de todas as suas forças para dissipar as brumas de um mundo que arriscam envolvê-lo outra vez.

Transpor o ne plus ultra é a alegoria do ponto de não retorno. Entretanto, é uma alegoria limitada porque Ulisses soçobra, ao passo que ultrapassar o ponto de não retorno não significa forçosa mente o término, mas assumir que a liberdade humana se desdobra em campo de plena indeterminação. Trespassar esse limiar corres ponde ao acontecimento, à produção de uma diferença no tempo e no espaço que é simultaneamente inovadora e irreversível (exatamente alguns dos traços da capacidade humana da ação, segundo Hannah Arendt). Porque é indeterminada, essa irrupção do acontecimento é essencialmente ambígua, como o vento do progresso impelindo o anjo de Klee adiante, mas de costas, fazendo-o deslocar-se, mas com as asas paralisadas, trazendo o novo, mas com os olhos volta dos para a pilha de ruínas que se aumenta indefinidamente.

Quais são, no que concerne à política, os grandes acontecimentos contemporâneos? Em que podemos discernir nossos ne plus ultra traídos no exercício da liberdade? Dois acontecimentos me pare cem indicar a ultrapassagem desse ponto: a irrupção da revolução e o advento do totalitarismo. A primeira é impulsionada pelo desejo de começar o novo, de reinventar o modo de viver, de dar novo significado à existência humana, de superar o tempo da miséria e do sofrimento. O segundo parece tomado pelo furor de tudo destruir para forçar o advento de um outro mundo no qual a condição humana tenha sido transformada em sua integridade. Malgrado essas diferenças evidentes, ambos os acontecimentos atestam o quanto na contemporaneidade foi modificada nossa relação com o espaço e com o tempo. Em ambos os casos, o ser humano rei vindica o pleno uso de sua capacidade criadora frente a um mundo que não parece mais fornecer as balizas que deveriam orientá-lo com segurança. Mas também aí se verifica sua oposição profunda, visto que a revolução, animada pelo desejo de liberdade, vai se desdobrar, na modernidade, na democracia, ao passo que o totalitarismo resultará na mais radical negação desse desejo de liberdade em favor de um regime que toma sua destruição como sua razão de ser. Como compreender o surgimento dessas duas vertigens, a da liberdade e de seu contrário? Como compreender suas relações? Em minha exposição pretendo enfrentar essas questões, salientando, por um lado, a irreversibilidade da ousadia de Ulisses; por outro lado, explorando sua ambiguidade, visto que o ne plus ultra, agora deixado para trás, nos protegia dos exces sos da liberdade, que pode produzir seu contrário. Vamos no ser vir das análises de Hannah Arendt e de Claude Lefort, em espe cial, suas reflexões sobre totalitarismo, revolução e democracia, com vistas a isolar essas duas experiências do irreversível, aquela trágica, onde o sistema totalitário arruína a liberdade e nos deixa perplexos diante do acontecimento (o que é manifesto por Arendt ao relatar sua primeira reflexão quando tomou ciência da existên cia dos campos de extermínio: “o que ocorreu não deveria ter ocor rido”), aquela outra esperançosa, messiânica, em que o aconte cimento reativa a esperança no novo começo, típica do fenômeno revolucionário.

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