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Christian Dunker

ONIROPOLÍTICA ENTRE O RETORNO DO RECALCADO E A NEGAÇÃO DO RETORNO

Uma psicanálise dos sofrimentos emergentes, em tempos de virada neofascista, precisa entender as mutações nos processos de produção de sintomas. Partindo da tese de que certos sinto mas psíquicos podem ser lidos como formações de compromisso que realizam, simbolicamente, o retorno de desejo recalcado. Argumentamos que processos de negação constituinte e estrutural, como recalque, foraclusão, desmentido e trauma, envolvem articulação entre economia libidinal, gramáticas de individualização narcísicas e formações desejantes. Fenômenos de amplo espectro, associados com negacionismo, ressentimento e a pós - verdade, bem como com o capitalismo de plataforma, tem deslocado e substituído sintomas clássicos, por formações de inibição e de angústia. A pressentida crise de paradigmas em saúde mental, não pode ser atribuída apenas a desconfiança endógena e crescente com a racionalidade diagnóstica DSM-CID, que globalizou o léxico do sofri mento em escala mundial, mas também a uma efetiva transformação dos modos de produção de subjetividades. Ou seja, a ideia de sintoma, como o retorno de um conflito, historicamente situado, de modo individual e coletivo, mas opaco em seu sentido, parece ter sido substituída, por formas de sofrimento tramitadas ao modo de livre concorrência entre identificações e de regulações administra das de afetos.     O processo de sociololização das diagnósticas psicanalíticas reconheceu, em primeiro momento, o declínio dos sintomas articulados ao modo de soluções simbólicas e deslocadas de conflitos e a ascensão correlata de formas “imunológicas” de sofrimento. Essa leitura é sincrônica com a ideia genérica de que o neoliberalismo, entre os anos 1973 e 2008, neutralizou conflitos por meio de práticas de evitação, indução e regulação permanente da anomia. Mas a hipótese tornou-se inócua para entender a reaparição de antagonismos de alta voltagem identitária e baixa valência transformativa, que caracterizam discursos e narrativas marcadas pelo fracasso do sintoma. Ou seja, o recalcado social e psíquico retorna, mas é lido como repetição sem progresso, an gústia sem destino, inibição sem história. Isso nos ajudaria a en tender a aparição de diagnósticos transversais em torno do declí nio da capacidade de sonhar, do declínio da imaginação ativa e a perda da função simbólica dos ideais. O sentimento de mundo e de Outro sem retorno, a negação como repúdio do retorno, convo ca uma oniropolítica, como recolocação do conflito e do antagonis mo social como gramática de articulação entre as reminsciências de um dia que nunca acaba, a história dos desejos arruinados e a pespectivação de um futuro desacelerado.

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