Thomás Zicman de Barros
CONSENSO E DISSENSO ARTIFICIAIS: DEMOCRACIA SELVAGEM E NOVOS COMEÇOS NA NOVA ERA DA TÉCNICA
Polarização, fragmentação, desinformação, incapacidade de produzir um mundo comum. Muitas análises apresentam esses fenômenos como patologias sociais decorrentes de transformações técnicas numa era marcada por mídias digitais e inteligência artificial. Há, porém, quem veja a tecnologia não como a fonte do mal. Multiplicam-se dispositivos técnicos que se propõem a “corrigir” as patologias da vida política contemporânea. Essas arquiteturas prometem capturar demandas sociais no nascedouro, mensurar a opinião pública com precisão e estabelecer consensos mesmo antes que o conflito se estabeleça. Mas essa promessa abre uma questão profunda: o que acontece com a experiência democrática quando o dissenso desaparece, ou ao menos passa a ser media do, classificado e redistribuído por dispositivos técnicos que visam a coesão?
O problema aparece com mais nitidez quando voltamos à forma como a democracia foi pensada por autores como Hannah Arendt e Claude Lefort. Em ambos, a democracia não é concebida como uma forma de governo, mas como uma experiência de desnaturalização. A democracia emerge quando hierarquias sociais aparentemente naturais são questionadas e tornadas visíveis. O que Arendt chamava de “novos começos” são momentos de ruptura que interrompem o fluxo banal e bem-comportado da vida social, introduzindo algo imprevisível no curso do tempo. Lefort acrescenta que tais rupturas não emergem do consenso, mas do conflito, e que não podem ser plenamente domesticadas. É por isso que Lefort afirma que, para merecer esse nome, a democracia deve ter algo de “selvagem”.
Por décadas, porém, a tradição que bebe da fonte de Arendt e Lefort negligenciou a questão da técnica. Mais do que isso, ela a rejeitou. Para diversos autores, tratar da técnica, das condições materiais e institucionais da produção e da circulação de discursos significava cair na armadilha do determinismo. A tecnologia e a mensuração que a acompanha seriam precisamente o inverso da indeterminação democrática, sempre desmesurada. Ocorre que hoje nos deparamos com um mundo no qual as interações sociais são cada vez mais registradas, analisadas e calculáveis. Hoje, como nunca antes, é possível estimar com grande precisão estatística como uma mensagem será recebida, circulará, viralizará. E não há volta.
Sem retorno, confrontados essa transformação inescapável, o problema ganha outros contornos: como pensar tecnologias que não se limitem a organizar artificialmente o consenso ou a inflamar artificialmente o conflito? Como desenvolver algoritmos que, sendo compreendidos como instituições, isto é, como conjuntos de regras que organizam práticas sociais, permaneçam abertos à contingência da vida democrática? A hipótese explorada aqui é que, em vez de suprimir a indeterminação, a tecnologia talvez precise aprender a conviver com ela, preservando o espaço no qual podem surgir os conflitos, as rupturas e os novos começos que constituem a própria experiência democrática.
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