SINOPESES
ADAUTO NOVAES
EU QUE APRENDA A LEVITAR
O ponto de não retorno sob a perspectiva da captura do imaginário pela superindústria do entretenimento e pelas big techs. A partir do reposicionamento ontológico trazido pela ciência e pela relativização da centralidade humana, o autor retoma a teoria psicanalítica heterodoxa d'Os Cinco Impérios (de MDMagno) para debater a turbulenta transição contemporânea rumo ao 'Império do Espírito', onde códigos genéticos e informacionais passam a operar desatrelados de suportes identitários convencionais.
JOSÉ MIGUEL WISNIK
SEM RETORNO: CAMINHAR À SOMBRA DAS IDEIAS
Analisa a mutação contemporânea gerada pela fusão do Capital com a Técnica (tecnociência, biotecnologia e revolução digital). Propõe abandonar o conceito tradicional de 'crise' — que busca saídas dentro do próprio sistema — para assumir um estado de irreversibilidade. O esvaziamento dos valores universais e a servidão voluntária aos mecanismos técnicos exigem a criação de novos conceitos que não fiquem presos à repetição do passado.
MARILENA CHAUI
IMAGENS DO SEM RETORNO
Mapeia os grandes marcos de ruptura histórica e científica na cultura humana (Copérnico, Galileu, Darwin, Maquiavel, Marx, Freud) que instituíram pontos sem retorno. Diante do advento do mundo digital, questiona se estamos diante de uma nova revolução conceitual e prática, buscando afastar tanto o otimismo ingênuo do progresso contínuo quanto a descontinuidade cega desprovida de determinações sociais e políticas.
LUIZ ALBERTO OLIVEIRA
HERMES EM SEU LABIRINTO
Aborda a mútua retroalimentação entre Ciência e Técnica e a capacidade atual de manipulação em escalas infinitesimais (químicas, metabólicas e cognitivas). Esse cenário dissolve as fronteiras tradicionais da identidade e do tempo (como a escala do femtosegundo), exigindo a categoria de 'mutação' em substituição à de 'crise' para descrever rearranjos de corpos híbridos e intelectos sintéticos em um mundo globalmente desconfigurado.
VLADIMIR SAFATLE
O FASCISMO NÃO VOLTOU, ELE SEMPRE ESTEVE ENTRE NÓS
Defende a tese de que o fascismo é um traço estrutural e contínuo das sociedades capitalistas, historicamente gerido de forma restrita contra populações vulneráveis e racializadas. Em momentos de crise estrutural do capital, esse dispositivo expande-se como uma gestão violenta da decomposição social, exercendo um terrível caráter 'terapêutico' para as crises psíquicas e subjetivas geradas pelo próprio neoliberalismo.
EUGENIO BUCCI
A OBSOLESCÊNCIA DO HUMANO
Discute como a técnica, o discurso e o capital fundiram-se em um sujeito automático que passa a prescindir da participação e do domínio da humanidade. Utilizando o exemplo recente de manipulações e edições genéticas em laboratório, o autor demonstra que o homo faber construiu lógicas e aparelhos que o homo sapiens já não compreende, resultando em uma entropia histórica e no esfacelamento das relações sociais.
ROBERTO ZULAR
PENSAMENTOS AN-ÁRQUICOS: PAUL VALÉRY E O DESEJO DO NEUTRO
Explora as anotações de Paul Valéry sobre os 'Princípios de An-arquia pura e aplicada', apontando o paradoxo de pensamentos que questionam a existência de hierarquias fixas e recusam o passado como mero repertório de soluções. Através do conceito de 'neutro' de Roland Barthes, propõe o esvaziamento das polarizações binárias e a criação de conexões estéticas e poéticas na articulação dos atos políticos contemporâneos.
LUIZ EDUARDO SOARES
DE VOLTA PRA CASA
Reflete sobre a perda das ancoragens ontológicas a partir do colapso climático e do avanço do neofascismo, afirmando que 'não há mais casa para onde voltar' como fundamento ou origem mítica. Analisa como o scrolling contínuo e os algoritmos operam como moendas antinarrativas que atacam a sintaxe da linguagem e a imaginação, defendendo a reinvenção do retorno não como retroação, mas como deslocamento aberto à alteridade.
OLGÁRIA MATOS
CASA, A BELEZA DO POSSÍVEL
Apresenta a utopia do feminino através da figuração da 'casa' como um território primeiro de abrigo, afetos e esperanças morais. Contrapondo-se à crise institucional do mundo contemporâneo, propõe o desfazimento da separação entre o espaço doméstico (oikos) e o político (polis), resgatando a ética da hospitalidade e do cosmopolitismo para fazer de todo lugar um espaço de convivência possível.
MARCIA SÁ CAVALCANTE SCHUBACK
A SUPER AÇÃO DA ANARQUIA (OU DA ANARQUIA DO ABANDONO)
Reflete sobre a anarquia não apenas como ausência de princípios, mas como uma superação da própria vontade de domínio técnico. Diante de um sistema contemporâneo que cancelou as experiências do aberto e do vago, a autora propõe, dialogando com Reiner Schürmann, a 'anarquia do abandono': o ato de assumir a existência em seu gerúndio, sem razões, fundamentos ou fins predeterminados.
FRÉDÉRIC GROS
FOUCAULT E A ANARQUIA
Celebrando o centenário de Michel Foucault, explora a dimensão profundamente anarquista da escrita do filósofo. Através do conceito de 'anarqueologia', demonstra que as estruturas de poder não possuem fundamentos eternos. O autor propõe a articulação de uma anarquia epistemológica, política e ética capaz de enfraquecer a Razão de Estado e reimaginar a subjetividade e a liberdade humana dentro da catástrofe contemporânea.
OSWALDO GIACOIA JUNIOR
KANT, NIETZSCHE, MARX, HEIDEGGER E O FIM DA METAFÍSICA
Analisa o desaparecimento das dimensões de proximidade e distância no horizonte contemporâneo, onde a técnica e o virtual assimilaram o real em um 'eterno retorno do indiferente'. Apoiando-se nas críticas de Marx e Heidegger sobre a alienação e a apatridade do homem moderno, propõe um diálogo produtivo entre a ontologia histórica e a tradição metafísica para pensar o avanço da desertificação do mundo.
THOMÁS ZICMAN DE BARROS
CONSENSO E DISSENSO ARTIFICIAIS
Questiona o impacto de dispositivos tecnológicos e algoritmos que se propõem a mapear demandas sociais e estabelecer consensos artificiais antes que os conflitos se manifestem. Resgatando as visões de Hannah Arendt e Claude Lefort sobre a 'democracia selvagem', o autor defende que as plataformas precisam aprender a conviver com a contingência e com a indeterminação, preservando o espaço legítimo das rupturas políticas.
JOÃO ALMINO
AUTORITARISMO E TOTALITARISMO
Investiga as faces do autoritarismo contemporâneo, que frequentemente se camufla sob discursos de defesa da liberdade, da tradição e da ordem. Distingue os conceitos de totalitarismo e autoritarismo à luz de Claude Lefort e Theodor Adorno, e critica as noções simplificadoras de 'Ocidente' e 'Oriente' através do conceito de universalismo descentrado, demonstrando que a tolerância e os direitos humanos não possuem pátria fixa.
PEDRO DUARTE
O SOBREVIVENTE: O PENSAMENTO ENTRE A FILOSOFIA E A LITERATURA
Diante da mutação tecnológica que paralisa o pensamento sob a forma do cálculo e da eficiência, propõe que a arte e a poesia funcionem como formas de fundar uma 'filosofia do agora'. O autor examina a separação histórica entre filosofia e literatura e recorre a Paul Valéry e Carlos Drummond de Andrade para demonstrar como o pensamento crítico pode emergir como um sobrevivente inesperado no cenário de não retorno da história.
HELTON ADVERSE
O TEMPO DO IRREVERSÍVEL: TOTALITARISMO E REVOLUÇÃO
Usa a alegoria dantesca de Ulisses ultrapassando as Colunas de Hércules para debater o ponto de não retorno e a entrada humana em um campo de plena indeterminação. O autor contrapõe as duas grandes vertigens políticas da contemporaneidade: a revolução, que nasce do desejo messiânico de fundar um novo começo livre, e o totalitarismo, movido pelo furor destrutivo que aniquila a própria condição humana.
JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA
O ACASO COMO MÉTODO? O PARADOXO COMO GUERRILHA DO TRABALHO
Contrapõe a dinâmica algorítmica das plataformas digitais — baseada na exclusão do novo e na criação de bolhas narcísicas de reiteração — à história literária e filosófica do acaso. Propõe uma 'guerrilha de produção de acasos' inspirada nos métodos de trabalho cruzados de Aby Warburg, Qian Zhongshu e Niklas Luhmann, investigando sistemas onde as interconexões imprevisíveis favorecem a emergência do inesperado.
MARCELO JASMIN
NÃO RETORNO
Mapeia a dupla articulação entre irreversibilidade e imprevisibilidade como qualidades centrais da ação humana. O autor analisa diferentes monumentos da história do Ocidente onde a equação entre a consciência de uma mutação profunda e o horizonte de incerteza radical se fez presente, buscando extrair dessas crises passadas subsídios e inspirações para o pensamento político contemporâneo.
RENATO NOGUERA
O COGITO DA MERCADORIA: O QUE RESISTE AO CÁLCULO?
Postula que a mercadoria se tornou o princípio de inteligibilidade do real, substituindo o sujeito cartesiano pelo lema 'sou calculável, logo existo'. Diante de um capitalismo de plataforma que mercantiliza corpos, afetos e mundos, o autor discute a disputa entre a 'máquina de equivalência' e as tradições 'cosmofílicas' de convivência (baseadas em Nêgo Bispo e bell hooks), defendendo a arte de amar e o vínculo não mediado como forças de resistência ontológica.
LUIZ CAMILLO OSORIO
MUTAÇÕES DA CRÍTICA DEPOIS DO FIM DA ARTE
Discute os impasses do julgamento estético contemporâneo após a falência das narrativas históricas englobantes e dos critérios formalistas do século XX. O autor investiga o atrito entre a emergência contemporânea das inscrições identitárias e dos lugares de fala dos artistas com a necessidade de preservar a autonomia, a imaginação produtiva e a abertura significante da própria obra de arte.
CARLOS ANTÔNIO LEITE BRANDÃO
UMA ANATOMIA DO SÉCULO XXI: O HUMANO EXILADO DO HOMEM
Aproxima o sentimento de fragmentação do século XXI ao Maneirismo do século XVI, períodos marcados pela perda de pontos arquimedianos e pela suspensão das certezas. Diante de uma contemporaneidade cujos homens se exilaram de sua própria dimensão humana sob o peso da técnica, o autor propõe a investigação de uma 'terceira metafísica' — poética, ficcional e amorosa — como via para reordenar o sentido e reencantar a experiência direta do real.
CHRISTIAN DUNKER
ONIROPOLÍTICA ENTRE O RETORNO DO RECALCADO E A NEGAÇÃO DO RETORNO
Desenvolve uma psicanálise dos sofrimentos emergentes na era do capitalismo de plataforma e da virada neofascista. Argumenta que os sintomas clássicos (articulados como soluções simbólicas de conflitos) foram substituídos por inibições e angústias imunológicas de livre concorrência identitária. Diante do declínio da imaginação ativa, propõe uma 'oniropolítica' capaz de rearticular os desejos arruinados e a historicidade do sofrimento coletivo.
GUILHERME WISNIK
O 'BLUR' GLOBAL
Contrapõe o paradigma iluminista da modernidade ocidental — que associava a verdade e o progresso à clareza e à dissipação das nuvens — ao estado atual de indistinção global (global blur). Em um mundo saturado por nuvens financeiras, digitais e climáticas, o autor discute o colapso da imagem da 'flecha do tempo' e a suspensão da história em um nevoeiro espesso que borra direções, horizontes e distinções geográficas.
RICARDO HENRIQUES
A VARIÁVEL CHAVE
Analisa a desigualdade social crônica e a erosão institucional como processos cumulativos que se aproximam de um ponto de não retorno. O autor posiciona a educação como variável-chave nesse cenário, debatendo o paradoxo de um campo essencialmente conservador (focado na transmissão de saberes passados) que precisa lidar com a robotização provocada pela Inteligência Artificial e com os impactos cognitivos do imediatismo digital.
LETÍCIA CESARINO
ILUMINISMO SOMBRIO
Examina o alinhamento ideológico e tático entre os altos executivos das big techs e movimentos aceleraicionistas de extrema-direita, conhecidos como neoreacionarismo ou Dark Enlightenment ('Iluminismo sombrio'). A conferência foca na concepção peculiar de temporalidade dessa indústria, que enxerga a crise das democracias liberais como irreversível e atua para projetar cenários antidemocráticos de soberania privada e neofeudalismo.
PASCAL DIBIE
UMA SOCIEDADE AMORAL
Inicia sua antropologia do mundo contemporâneo sob o impacto geopolítico de novas guerras mundiais mediadas pelo controle de energias, drones e dinâmicas de terror. O autor define como 'amoral' a perda da capacidade de se reconhecer como parte de um todo social consentido, descrevendo o esvaziamento das identidades culturais locais e o desafio de manter vivo o humanismo em paisagens marcadas por ruínas permanentes.
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