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Oswaldo Giacoia Junior

KANT, NIETZSCHE, MARX, HEIDEGGER E O FIM DA METAFÍSICA

A pergunta: o que é o homem? faz parte do conjunto de questões com as quais Kant, determinando os rumos da filosofia contemporânea, coloca o problema crítico fundamental: o que é nossa atualidade? De acordo com o diagnóstico do presente formulado por Michel Foucault, com isso ele descerraria o “campo atual das ex possíveis [...] do que poderíamos chamar de uma ontologia do presente, uma ontologia de nós mesmos”9. A partir daí, seríamos tentados a concluir neste campo estaríamos situados o mais próximo possível de nós mesmos. E, no entanto, o que nos revela o panorama histórico e político contemporâneo é uma incapacidade de discernir qualquer proximidade, uma perda do sentido das coisas próximas – justamente porque está ausente a dimensão da proximidade, e com ela também aquela da distância.

Nós abolimos todas as fronteiras, suprimimos qualquer limite, no es paço e no tempo, entre o virtual e o real. Nesse sentido, não há mais distância, diferença – e isso é, propriamente, o inquietante, o que desconcerta – tudo se tornou espantosamente próximo, e a proximidade desapareceu na assimilação do indiferente, numa variante macabra do eterno retorno do mesmo. O assustador, então, o que angustia, é que não discernimos mais o que é, em nós mesmos e em torno de nós. E deste ponto não temos mais como recuar: “Que coisa espera ainda esta perplexa angústia, se o terrificante (das Entsetzliche) já é? O aterrorizante (das Entsetzende) é aquilo que coloca fora de sua essência precedente tudo o que é. O que é este aterrorizante (dieses Entsetzende)? Ele se mostra e se oculta no modo como tudo se essência, a saber, que apesar de toda superação das distâncias, permanece ausente a proximidade daquilo que é”10

9 Foucault, M. ‘Qu’est ce que les Lumières?’ Magazine Littéraire, nº 7, maio de 1984, p. 35-39. (Retirado do curso de 5 de Janeiro de 1983, ministrado no Collège de France). In: Foucault, M. Dits et Écrits. Paris: Gallimard, 1994, Vol. IV, pp. 679-688.

Este é o horizonte que se descerra para nós no fim da metafísica, de Kant a Nietzsche, passando por Marx, na era da escalada intergaláctica da tecnociência e da desertificação da Terra como destino do mundo. Nela, homem e mundo, tudo aquilo que é, foi desloca do para fora de sua essência, dejetado de seu elemento, – tornado in-diferente, a-pátrida, no léxico heideggeriano. É por isso que se torna necessário, como tarefa incontornável para nós, pensar este destino de um ponto de vista histórico-ontológico, numa retoma da da tradição metafísica com apoio no insight de Nietzsche: “o deserto cresce. Ai daquele que abriga desertos”.

Em seu texto sobre o humanismo, escreve Heidegger: “O que Marx a partir de Hegel reconheceu, num sentido essencial e significativo, como a alienação do homem, alcança, com suas raízes, até a apatridade do homem moderno. Esta alienação é provocada e isto, a partir do destino do ser, na forma da metafísica, é por ela consolidada e ao mesmo tempo por ela encoberta como apatridade. Pelo fato de Marx, enquanto experimenta a alienação, atingir uma dimensão essencial da história, a visão marxista da História é superior a qualquer outro tipo de historiografia. Mas porque nem Husserl, nem, quanto eu saiba, até agora, Sartre reconhecem que a dimensão essencial do elemento da história reside no ser, por isso nem a Fenomenologia, bem o Existencialismo atingem aquela dimensão, no seio da qual é, em primeiro lugar, possível um diálogo produtivo com o marxismo”11. Buscar subsídios para pensar sob tais coordenadas esse diálogo produtivo, lançar um olhar no que que se mostra, com pressen timento do que se oculta hoje, na perspectiva das mutações que atravessamos e que nos atravessam, é o objetivo principal desta comunicação.

10 Heidegeer, M. Einblick in das was ist. Bremer Vorträge 1949. Der Hinweis. In: Gesamtausgabe vol. 79. 2ª. Auflage. Frankfurt/M: Vittorio Kolstermann, 2005, p. 04. 11 Heidegger, M. Sobre o Humanismo. Trad. Ernildo Stein. In: Coleção Os Pensadores vol. XLV. 1ª. Ed. São Paulo: Abril Cultura, 1973, p. 360.

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