Luiz Eduardo Soares
DE VOLTA PRA CASA
Na resenha sobre o “Alfabeto das Colisões”, que publiquei em 2024, com o título “Sinais de inundação: Safatle e os refugiados da linguagem”, escrevi o seguinte: Inundação catastrófica que, a meus ouvi dos, ecoou o dilúvio gaúcho, vivido por mim em dupla chave: desastre radical do capitalismo e tragédia particular. Isso porque ambos, livro e cataclismo climático, sintoma da embriaguês do antropoce no, ambos sopram, sussurram, insinuam, infiltrando-se nos pilares de nosso mundo (de pensamento e experiência), ambos minam as ancoragens ontológicas da segurança.
A ilusória segurança ontológica é nossa obsessão porque, suprema Hybris, pretendemos exorcizar a instabilidade radical que somos, pretendemos recalcar a irrealização que é o destino do sujeito e da linguagem. O que sussurram o Alfabeto das Colisões e o cataclismo gaúcho (...) é um recado de fato muito simples: não há casa para onde voltar; não há mais origem para reencontrar; não há mais como reconciliar as partes da unidade fraturada numa síntese dialética escatológica; a política está solta no mundo, como a razão e a paixão. Nós perdemos o rumo de casa, sim, não há mais casa para onde retornar -aquela casa que, montando-se como arché, projetava-se como telos, apontando o fim, o alvo, o sentido.
Não é também sobre a errância sem volta que refletem Adorno e Horkheimer na Dialética do Esclarecimento? Não é disso que se trata? Viagem negativa, identidade a si fendida, unidade irrecuperável, a Odisseia truncada? Não somos todos desterrados da linguagem, como seremos, mais cedo ou mais tarde, refugiados climáticos? E, acrescento, não é também esse, de certa forma, o tema decisivo do belo ensaio de Adauto Novaes “Sem retorno; caminhar à sombra das ideias”, escrito para inspirar as reflexões do ciclo Mutações, em 2026?Não há mais casa para onde voltar, no Rio Grande do Sul, nos do mínios do capital, no antropoceno. (Assim como o filho pródigo está inexoravelmente extraviado, fugir de casa já não pode ser a manifestação suprema da rebeldia.)
Mas prestem atenção: nem melancolia, nem desespero. Cito Safatle, em seu epílogo: “Ai daqueles que nada querem saber da soberania do que brota no solfejo de nossas filhas. Esses, meus amigos, esses não verão os milagres que, afinal, nunca foram mesmo para os que só conhecem o sol do meio-dia.”
Muito bem, esta senha me autoriza a concluir lhes dizendo o seguinte: devolvidos à possibilidade de pensar e agir, individual e co letivamente, entre o dilúvio e o deserto, que tal reaprender a falar?
Faço das palavras finais da resenha a abertura de minha apresentação. Diante do fascismo, o problema talvez não seja não ter para onde ir, mas não ter para onde voltar. Claro que as associações paradigmáticas são perigosas e fartamente aproveitadas pelos militantes da barbárie: a idealização do passado, o sonho regressivo das restaurações, o vocabulário vingativo que responde ao repertório das perdas, o cardápio das desilusões, das esperanças traídas. Contudo, a mitologia do retorno não se esgota nas versões reacionárias. Além disso, seu peso é muito maior que a ousadia pueril de confrontá-la.
Casa não remete apenas a unidade, fundamento, origem, univocidade, lugar de poder -signos nesse caso imantados pelo patriarcado. Refere-se também, em modulação divergente, a abrigo, acolhimento, mútuo reconhecimento, fonte de força compartilhada. Tingida, diluída e rasurada, quase apagada no dilúvio, afogada no ácido corrosivo do gigante Venceslau Pietro Pietra (de Mario e Joaquim Pedro) e no niilismo epidêmico do neoliberalismo, a imagem da casa entretanto perdura, a volta ao lar continua resplandecente -paradoxal mente, à sombra-, um sonho sem nome plantado fundo também no coração da esquerda. Vale a pena revolver o entulho porque há vida sob os escombros. Podemos dar a volta nessa volta descartada.
Voltar para casa só é possível quando o espaço e o tempo se mobilizam, quando esse cruzamento introduz história e alterações, quando o retorno não é retroação sobre a linha do tempo (a lei da entropia o impede), mas deslocamento para outro lugar, num movimento que refrata e inflete a caminhada já trilhada. Quando, portanto, se introduz a disposição generosa (e corajosa) de abrir-se para um reencontro em alguma medida (mesmo sutil) surpreendente, de abrir se para admitir o (re)encontro com o mesmo diferido, isto é, com o Outro. Aliás, o sujeito que chega à casa de volta não é o mesmo que partiu. Não se chega à casa sem alterar-se. Na “Viagem do recado”, Wisnik, lendo Guimarães Rosa, nos diz por quê.
Somente a compulsão preserva o mesmo, embora o façailusoria mente. O retorno compulsivo é aquele que busca o mesmo inpossível, a fixidez inalcançável, a estabilidade irrealizável. Mas a volta refratada pela alteridade, que o caminhar provoca, essa pode se comparar a um projeto político promissor e generoso, a um desejo que merece ser reativado.
Do outro lado, do lado da obsessão, está o capital, estão as relações degradadas pelo neoliberalismo periférico, aliado ao racismo, cujo parceiro fáustico é a experiência obsedante bio-cultural ditada pelo devorador de imaginários: o scrolling e o domínio virtual dos algoritmos, na ponta dos dedos. Devorador de mundos, de nossa capacidade de fabricar mundos, na medida em que, como resumidamente expus em outra oportunidade: Os algoritmos não expropriam apenas nossas ideias e redefinem tempo e atenção, eles atacam a linguagem, em especial a sintaxe, como parasitas, ou melhor, como bactérias que devoram o corpo de que se alimentam. Atacam, devoram e expelem a sucessão, o scrolling, isto é, a sequência esvaziada tanto de conexão (laços sintáticos, conscientes ou inconscientes), tensão e imantação metonímica (que envolveria linguagens simbólicas e cosmologias), quanto de expansão significativa (imaginativa).
Os algoritmos buscam substituir o investimento libidinal na estética (e no pensamento que supõe ou engendra arquiteturas) pela compulsão à repetição. A Gestalt do scrolling opera como uma espécie de moenda antinarrativas, devastando o potencial metonímico e metafórico. Aniquilando o jogo enigmático da significação na linguagem, impõe-se o recalque à imaginação (como nos ensinara Luiz Costa Lima) e à lógica do sensível, fonte da faculdade de fabular em conversa com o mundo, em negociação com as coisas. Como edificar mundos sem mitos? O alvo mais radical dos algoritmos e do looping digital é o mundo, ou melhor, é o potencial de fabricação de mundos. Resta a resignação, o realismo capitalista, como dizia Mark Fisher.
A experiência com as telas manualizadas articula uma insuspeita da substituição: em vez de epistemologia (em cujo campo opõem-se perspectivas cognitivas inclinadas à separação cartesiana entre sujeito e objeto ou à participação imersiva lévy-brulliana), instaura-se adição. Em vez de modalidades de relações do tipo sujeito-objeto, ou sujeito-sujeito, temos magnetismo mórbido, continuidade psico bio-mecânica, transposição para a dimensão orgânica do objeto virtual (táctil/epidérmico/visual/sonoro) -em lugar da temida maquinização do biológico, temos seu inverso.
No contexto do capitalismo de nuvem - nos termos de Varoufakis -, da geopolitica reduzida unidimensionalmente à força, do avanço global do neofascismo -a despeito de resistências, que não devem ser subestimadas, afinal, ainda estamos aqui-, voltar para casa é o clamor regressivo pela restauração da segurança ontológica, ameaçada por mil e um fatores que seria preciso elencar e analisar, e que se estendem da separação entre corpo, género e sexualidade, ao mundo do trabalho e à crise ambiental (que é muito mais do que uma crise do meio ambiente, bem entendido). Entretanto, para os fins da presente apresentação sintética do tema que pretendo abor dar, basta dizer que, nesse quadro, a volta para casa é um tema (metafísico, material, psíquico, ideológico e político) chave, mesmo que oculto, o que torna sua inviabilidade uma fonte de medo, angústia, instabilidade, insegurança profunda. A irrealidade da casa, norte do retorno, é o nome da ameaça existencial. Estamos condenados a errar, refugiados. Somos todos migrantes. A versão edulcorada do easy rider converteu-se na maldição do século. A hipótese lisérgi ca degradou-se na bad trip que herdamos. Assim como está sendo cancelada a hipótese humanista arendtiana sobre o nascimento como promessa de redenção. Valeria Luiselli, em seu mural narra tivo “Arquivo das crianças perdidas”, nos oferece um panorama ma gistral desse destino -seria melhor dizer: desatino.
Voltar para casa -como voltar-se para si mesmo- é viagem ardilosa, repleta de armadilhas, um jogo de identidades capcioso, que aparenta fundamentar associações por analogias sucessivas, reiterando a univocidade do centro, e que acaba derrapando na ex tensão do fio desencapado que se desprende da série e magnetiza o ponto fora da curva, o ponto de fuga, em desalinho, desajustando a simetria entre equivalentes. A moeda enlouquece. A instauração da descontinuidade produz mutações que podem ser inibidas pelo sistema imune ou podem ser metabolizadas pelo ecossistema e mudar a rota do processo significante, histórico ou evolucionário. Ousaria brincar com Mauro Almeida e sugerir que, decifrando a fórmula lévi-straussiana do mito, ele nos ensinou a levar a sério a “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade:
João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.
Trata-se de deixar espaço para quem não entrou na história, para o que não entrou na história, ainda. Está longe, do outro lado do mundo, no avesso da ancestralidade ameríndia, habita a caverna mais recôndita da tradição eurocêntrica, e no entanto fala conosco, e no entanto faz sentido. Não se trataria de prever a chegada disso que desconhecemos, mas de reconhecer que, no meio da noite, o hóspede -incômodo ou não- pode bater à porta. Ou nos convidar a uma casa cujo paradeiro ignoramos. Em outras palavras, dialéticas à parte: o mundo dá voltas, pessoal.
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