MARCIA SÁ CAVALCANTE SCHUBACK
A SUPER AÇÃO DA ANARQUIA (OU DA ANARQUIA DO ABANDONO)
Existirmos – a que será que se destina? Caetano Veloso
Em resposta à bonita introdução de Adauto Novaes para o novo ciclo das mutações, quero propor uma reflexão sobre a super ação da anarquia. É uma reflexão sobre como a perda e falta de funda mentos e princípios de orientação no pensamento e na ação, isto é, a anarquia é ela mesma uma ação, uma super ação, que interrompendo, tal o ritmo de uma respiração, a vontade de superação, abre a possibilidade de um outro pensamento sobre o que é agir: a possibilidade de um pensamento poético da ação8. Para desenvolver essa reflexão, vou tentar seguir o “método sombrio” proposto por Adauto, de pensar o impensado poético da ação à sombra de algumas ideias de “superação” que subsistem no pensamento contemporâneo sensível à questão da técnica e de sua inspiração heideggeriana. Enquanto solda articuladora de capi tal e técnica, a mutação de mundo é a experiência de uma anar quia não só no sentido de sem fundamento e princípio, mas igual mente de sem começo, um outro sentido da palavra grega arché de onde se forma o termo anarquia. À sensação inescapável do sem retorno do mundo mutado, corresponde ainda a sensação de um mundo sem recomeço possível e, portanto, de um mundo sem saída. Nessa sensação, “a perda das duas grandes invenções da humanidade: o passado e o futuro”, como fraseou Paul Valéry, é entendida como experiência de um mundo sem retorno, sem saída e sem rumo. É a sensação de um mundo fechado, de um sistema sem abertura, de onde foi extirpada a experiência do aberto e do em aberto, ou seja, da indeterminação e do vago, dos vagalumes do possível. À sombra dessa sensação, coloca-se a questão de como romper o cerco, como superar o sem-saída, a tensão angus tiada e dilacerante entre o sem retorno e o sem destino? Nas vá rias tentativas de pensar a superação da metafísica de Nietzsche e Heidegger a Derrida, vemos variar ideias de “virada” e “revira da” e “volta” e “revolta”, “serenidade” e “retraimento”, “aporia” e “double-bind”, “auto-imunidade” e “entropia”. Embora diversos em suas visadas e estratégias de pensamento, são todos concei tos se movimentando em busca de um ponto de saída capaz de nos devolver à segurança de um chão, um fundamento e princípio que possam determinar a indeterminação desorientadora do mundo. A busca de superação corresponde assim à busca de um fundamen to e princípio de começo e início de maneira a tornar possível uma ação sobre o mundo. São conceitos adversativos – pois pensam que, embora o mundo esteja mutado, embora não haja retorno e nem um novo rumo e mesmo que a existência tenha que se sustentar na an gústia do enclausuramento ou emparedamento [Cruz e Souza] do sem-saída, é preciso trabalhar para se encontrar um caminho de retorno para a urgência de fundamento e princípio capazes de rit mar a ação, ou seja, é preciso superar a anarquia.
8 La poésie ne rythmera plus l’action. Elle sera en avant. (Rimbaud)
O pensamento da anarquia proposto por Reiner Schürmann tenta abandonar esse apelo de retorno, esse apelo ao fundamento e ao princípio para ritmar a ação. Ele propõe pensar a anarquia de ser e existir, a anarquia que ao abandonar o apelo da “arché” abandona-se ao ato de existir, ele mesmo sem fundamento ou princípio. O abandono da busca de um princípio para o fazer implica um abandonar-se ao ato de existir entendido como um outro senti do de fazer e ação. Algo assim, pensou Paul Valéry ao escrever que “um poema nunca se acaba, apenas se abandona”. E também Paulo Henriques Britto ao escrever, num quase murmúrio, no seu último livro de poemas, cujo título é Embora: “(Escreva, porém. Apesar. Embora)”. A questão não é mais buscar superar o vazio do sem retorno, do sem saída e do sem rumo mas abandonar-se ao embate com a página em branco do estar existindo, do estar sendo, do gerúndio de ser – este sem razão, nem fundamento, sem princípio nem fim ou rumo. A questão é a coragem de pensar como quem vai embora, que assume o estar sendo como o em-bora-ho ra onde se torna possível esboçar modos de existir segundo a “divina mimesis” [Pasolini] da super ação da anarquia – ou se preferirmos, da anarquia do abandono.
Escutando mais uma vez Paulo Britto:
Exeunt omnes
No momento derradeiro
antes de sair de cena,
por um instante, todo ser
exibe uma aura tênue.
Essa aura, névoa ou nuvem
em todo alguma aparece.
Mesmo assim, existe tanto
Quanto a mente que a percebe.
ou o olho que a enxerga
Nem só de pedra e metal,
de madeira, carne e merda
se constitui o real:
A despedida das coisas
do mundo das aparências
também tem, de certo modo,
uma espécie de existência.
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