ROBERTO ZULAR
PENSAMENTOS AN-ÁRQUICOS: PAUL VALÉRY E O DESEJO DO NEUTRO
“A partir de certo ponto não há mais retorno. É este o ponto que tem de ser alcançado” Franz Kafka
Entre 1936 e 1938, Valéry escreveu um conjunto de anotações muito peculiares com um título extraordinariamente irônico: Princípios de An-arquia pura e aplicada. Ora, a ironia vem do paradoxo de tratar de princípios que questionam a existência de quaisquer princípios, colocam em suspensão qualquer pressuposto de pureza e que, por sua própria natureza, não podem ser simplesmente aplicados, mas sempre desviados de sua aplicação para buscar algo inesperado.
Nesta apresentação procuraremos mostrar como essas anotações an-árquicas se desdobraram no Curso de Poética que Valéry ministrou a partir de Collège de France. Nesse curso, ele se colocava como crítico voraz da Bolsa de Valores do Espírito tal qual apontado por Adauto Novaes no texto cirúrgico que abre este ciclo das Mutações. Ao não saber lidar com essas mutações, nos apegamos a saídas unívocas, a ilusões hierárquicas, a passados totalitários utópicos.
No entanto, não há retorno. Se é verdade que, como disse Valéry, entramos no futuro de costas (como aquele anjo de Klee/Benjamim, olhando para trás), o que estava em jogo nessa frase eram os grandes equívocos de se colocar a história do passado como um repertório de soluções dos problemas que enfrentamos. As mutações exigem mutações das formas de pensamentos. Pensamentos an-árquicos implicam uma outra articulação entre o passado e o futuro, em movimentos ao mesmo tempo de volta e de avanço, reversíveis e irreversíveis.
Esse caráter i-rreversível, para Valéry, necessariamente passa pela articulação entre corpo, espírito e mundo (hoje implicados, respectivamente, nas questões da biotecnologia, da inteligência artificial e do antropoceno). O espírito da an-arquia toca exatamente na articulação não hierárquica entre eles e os perigos e tentações que rondam seu entorno. A an-arquia seria assim a possibilidade de potencializar o espírito para habitar o nó entre corpo e mundo, passado e futuro, desdobrando como que pelo interior do problema a complexa trama de determinações e possibilidades, limites e limiares, daquilo que conservamos no processo de reinvenção do mundo e de nós mesmos.
Em todos esses casos, a ideia básica é de que não haverá uma única forma de pensamento ou um único sistema de ideias que dará conta da complexidade do mundo. Na verdade, não haverá nem mesmo um só mundo, mas muitos. E esses mundos sequer estão dados, precisam ser feitos e, mais do que isso, demandam formas inauditas de articulação entre eles.
No fundo, o diagnóstico de Valéry é de que “não há mais pássaros na linguagem”, isto é, estamos perdendo a capacidade de articular a experiência do corpo e do mundo com as formas de elaboração do pensamento. Mais do que isso, estamos presos a um imaginário abstrato que nos consome a tal ponto que esses mundos e esses corpos precisam ser urgentemente reinventados.
Daí a sua proposta de uma an-arquia, de uma política que desfaça os pressupostos ontológicos hierárquicos que buscam soluções fáceis – e unívocas – para problemas extraordinariamente com plexos. A mutação para Valéry é exatamente a possibilidade de encontrar a potência heterogênea da experiência, o modo de articular essa multiplicidade em transformação.
Nesse sentido, o hífen de an-arquia opera um papel muito importante. Ao manter o paradoxo, o hífen não nega que haja hierarquias (sistemas, determinações), mas aponta que a negação que estrutura esses sistemas opera numa outra lógica na qual a abertura para diferentes possibilidades se torna inerente ao seu funciona mento. Como já havia mostrado Valéry em seu M. Teste, o problema da consciência é reduzir-se a si mesma e excluir tudo aquilo que coloca em xeque os seus limites. Nos pensamentos an-árqui cos ocorre exatamente o contrário: prolifera tudo aquilo que é heterogêneo, atuando nas bordas do sistema. Nessa abertura, os limites ganham contornos cada vez mais finos e complexos, formas singulares de permeabilidade, diferentes zonas de contato - sem pre mais densas, mais espessas - caminhando para aquele famoso verso de Valéry em que se dá “a transformação das margens em rumor”.
E aqui chegamos à questão do neutro, pois, como propõe Roland Barthes, o mais interessante é que essa transformação não se dá por uma exacerbação de quaisquer dos parâmetros, nem pela hierarquização dos modos de tomada de decisão, mas por uma “neutrisação” das polarizações, dos binômios opositivos, das alternativas infernais. Aproximar-se do neutro - bem diferente de neutralizar - é esvaziar a obrigatoriedade do sentido único de “História” ou da política como escolha entre possibilidades pré definidas. A busca do neutro se abre para as modulações, para as zonas de contato, para os limiares onde a intensidade das forças heterogêneas possam encontrar outras formas de articulação.
Nesse sentido, como propõe Fábio Roberto Lucas, é preciso pensar uma poética para a política na medida em que a arte se torna o lugar de potencialização desses mundos que se atravessam: ao mesmo tempo o pensamento, os jogos de linguagem, o sensível, o imaginário e assim indefinidamente. A questão hoje não está em dizer o que se tornou predominante, mas, an-arquicamente, criar as conexões, as acoplagens entre essa miríade de mundos, como acontece em um simples verso que poderia, de modo insuspeitado, sugerir uma outra gramática para articulação dos atos políticos.
Como na epígrafe de Kafka, é preciso levar mesmo os mais ínfimos de nossos atos até o limite de sua potência, até um lugar de trans formação a partir do qual não haja mais retorno. Talvez esse lugar - que precisa ser alcançado - seja a única maneira de resistirmos à “arqué” unívoca e hegemônica da violência, da pura lei do mais forte (a face oculta do liberalismo, diria Valéry) que destrói todas as formas de vida que não se submetam à lógica da destruição.
Vê-se assim que a an-arquia, atravessada pelo neutro, implica passar por muitos campos minados de polarizações e paradoxos, assim como atravessar muitas formas de retorno e de “não retor no”. Como lidar com elas – e, sobretudo, que tipo de articulação fazer entre elas - é o que (ainda) nos resta.
Centro de Pesquisa e Formação
Rua Dr. Plínio Barreto, 285, 4º andar | Bela Vista – São Paulo/SP | CEP: 01313-020
Tel.: (11) 3254-5600
• Metrô: Trianon – Masp (700m) / Anhangabaú (2000m)
centrodepesquisaeformacao@sescsp.org.br | sescsp.org.br/cpf
Fundação Casa de Rui Barbosa
Praia de Botafogo, 190 | Botafogo – Rio de Janeiro/RJ | CEP: 22250-900
Tel.: (21) 3799-5938
• Metrô: Estação Flamengo (500m)
contato@rb.gov.br | www.gov.br/casaruibarbosa/pt-br
Fundação Getulio Vargas
Rua São Clemente, 134 | Botafogo – Rio de Janeiro/RJ | CEP: 22260-002
Tel.: (21) 3289-4600
• Metrô: Estação Botafogo (300m)
faleconosco@fgv.br | portal.fgv.br
© 2026 ARTEPENSAMENTO | WWW.ARTEPENSAMENTO.COM.BR | ARTEPENSAMENTOCULTURAL@GMAIL.COM
© 2026 ARTEPENSAMENTO | WWW.ARTEPENSAMENTO.COM.BR | ARTEPENSAMENTOCULTURAL@GMAIL.COM