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EUGENIO BUCCI

A OBSOLESCÊNCIA DO HUMANO

A técnica, seu discurso e o capital, agora fundidos em um único sujeito automático, passam a prescindir da humanidade (eu ainda me espanto, embora já desconfiasse)

A impressão vem de longe. Há quase vinte anos, num dos ciclos Mutações de Adauto Novaes, lancei hipóteses que talvez soassem exageradas. Não eram. Por essa razão, além de outras, tomo a liberdade abusada de, nesta sinopse, invocar passagens que eu mesmo escrevi. Serei autorreferente, não há como evitar, mas a perspectiva de pensamento que se abre nessa volta a textos idos talvez compense o triste percurso do eu em busca de si mesmo. “Já se avizinham as mutações violentíssimas provocadas pelo que temos ingenuamente chamado de ação humana”, eu dizia. O ano era 2008

“As revoluções tecnológicas se sucedem – e a próxima grande revolução tecnológica será a combinação da tecnologia com a genética, gerando novos bichos parcialmente assemelhados a nós, mas que se distanciarão velozmente. (...) Os seres do futuro, que nos sucederão, operarão complexos sistemas sociais – que nasceram conosco, mas que, tornados mais e mais insondáveis, haverão de nos suceder também. A nova revolução tecnológica será o câncer domesticado.”

1 BUCCI, Eugênio. Aquilo de que o humano é instrumento descartável: sensações teóricas. In: NOVAES, Adauto (org.). A condição humana – as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC SP. 2009. ISBN: 978-85 220-1060-8 (Agir) – 978-85-98112-90-9 (Edições SESC SP). P. 375-394. Os trecho citado aqui se encontra na página 387. A palestra foi realizada em 2008.

Mais presentemente, pesquisadores começaram a falar em “edição” da carga genética, sugerindo que seria possível programar em laboratório a compleição física e a potência mental de um bebê que ainda não nasceu, mais ou menos como um bom preparador de texto ajeita meticulosamente cada parágrafo do livro que ainda não foi publicado. Vêm aí os seres humanos “editados” no bojo das revoluções tecnológicas: mutação administrada, ou o câncer domesticado.

A toda hora, vejo e revejo o crescimento dessa nova onda probabilística. Circulou esses dias a saga de um certo “Dr.  Frankenstein chinês”. O caso foi publicado em janeiro de 2026 no The New York Times. A reportagem, assinada por Andrew Higgins, ganhou tradução no jornal brasileiro O Estado de S. Paulo. O lead merece ser transcrito aqui:

“Por criar os primeiros bebês geneticamente editados do mundo, He Jiankui foi criticado como o ‘Dr. Frankenstein chinês’. Ele foi condenado a três anos de prisão na China por enganar as autoridades médicas. Mas, à medida que a China intensifica suas ambições de se tornar uma superpotência em biotecnologia, o pesquisador desacreditado, de 41 anos, não foi silenciado nem empurrado para o esquecimento. Em vez disso, ele vive e fala abertamente em sua casa, em um centro de pesquisa apoiado pelo governo ao norte de Pequim, gabando-se de seu trabalho e insistindo que seu país está pronto para aceitá-lo.”

O Dr. He Jiankui mora numa casa bastante confortável para os padrões chineses, bancada por um patrocinador que prefere se manter anônimo. Na foto do jornal, ele aparece ao lado de um piano que ocupa o centro de um hall cuja forma se assemelha a um octógono. Em cada uma das paredes, uma janela alongada de alto a baixo deixa ver um jardim com árvores pálidas. Tudo parece calmo e arejado ao redor.

2 HIGGINS, Andrew. ‘Dr. Frankenstein’, preso por teste com bebês, retorna: ‘Edição genética da China dominará o mundo’. O Estado de S. Paulo. 27 jan 2026 (versão on-line). https://www.estadao.com.br/ciencia/dr-frankenstein-da-china-preso-por editar-genes-de-bebes-diz-que-o-tempo-esta-a-seu-favor/

O personagem atravessou um pequeno inferno em sua carreira, mas agora está tudo bem – ao menos segundo o próprio. Em 2018, ele “editou” um embrião que resultou em duas crianças gêmeas. Depois, adotou os mesmos procedimentos para a formatação genética de um terceiro bebê, de outro casal. Suas experiências causaram indignação na comunidade científica, pois não se sabia quase nada sobre os efeitos a longo prazo que seu arrojo científico poderia acarretar. Eram dúvidas graves. Estaríamos diante de uma nova era eugenia?

Em sua defesa, o ‘Dr. Frankenstein’ nega qualquer intenção eugenista e diz que os objetivos de suas intervenções eram apenas melhorar a saúde das futuras crianças, tornando-as mais resistentes a certos vírus, como o HIV. Para ele, o problema real não está na China, mas em outro endereço: o Vale do Silício. É lá que, segundo seu ponto de vista, os bilionários buscam maneiras de criar bebês com inteligência superior. Nesse trecho da reportagem, o chinês assume um tom mais agressivo: “Se alguém usar isso [a edição genética] para aumentar o QI, coloquem o cientista na prisão.”

O Dr. He se mostra confiante e otimista. Acredita que novas regulamentações vão reabilitar seu trabalho e que o futuro lhe será favorável. Ele aposta que a China triunfará também nessa campo. “A edição genética chinesa dominará o mundo, assim como os veículos elétricos chineses já fizeram”. Não se pode dizer que este ja errado – se olharmos o que já acontece com o mercado de auto móveis em todos os continentes, não é difícil lhe dar razão.

Claro que as ousadias do Frankenstein chinês são apenas o começo. A edição de embriões virá como rotina administrativa banal, assim como já são rotina as engrenagens da Inteligência Artificial insta ladas em processos antes mediados por alguma, digamos assim, presença de espírito. Nada poderá ser feito para deter o avanço das tecnologias, biológicas ou não. Regular alguma coisa poderá reduzir danos, mas o que está em marcha não é mais reversível.

As mutações que se depositam sobre a aventura humana, como que a soterrá-la, deixam ver vagas sucessivas de obsolescências sobrepostas no corpo e no espírito. O que se passa de mais central e de mais decisivo no fio em que se equilibra o destino da humanidade vai se tecendo cada vez mais sem requerer a participação da própria humanidade. É como se formas de vida misteriosas, ainda insondáveis, tendo brotado da experiência humana, lograssem se descolar do humano e sobreviver a ele. Caminhamos mal. Marcamos passo “à sombra das ideias”, na expressão que Adauto Novaes usou no título do ensaio inaugural deste volume com as sinopses do Ciclo Mutações de 2026.

Com a técnica, ela mesma, o que se deu foi justamente isso: a ine lutabilidade. Nada foi capaz de interromper sua ascensão. Tendo brotado do trabalho e do engenho humanos, ela desembarcou de seu berço de origem feito um estágio avançado de nave espacial que se desprende do foguete para seguir viagem por si próprio.

Que a técnica estava predestinada a fugir ao controle eram favas contadas. Heidegger anotou isso numa de suas palestras de 1949, publicadas em 1954 no volume intitulado “Palestras e Ensaios”. Num dos capítulos dessa obra, “A questão da técnica”, ele se refere com clareza a essa iminência: “Pretende-se dominar a técnica. Esse querer dominar torna-se tanto mais urgente quanto mais a técnica ameaça escapar ao controle do homem.”

Já estava posto. Mais do que posto, o “escapar ao controle” já estava percebido e anotado. Pois agora a mesma tendência vai se impor com a edição de embriões e com o que quer que seja – não por ganância, não por uma consequência adversa da competição selvagem entre as big techs em seus mergulhos cromossô micos, mas simplesmente porque esse saber prático “escapou ao controle” e fez valer sua própria sanha, a despeito das veleidades do sapiens. Em poucas palavras, o homo saber construiu aparelhos e lógicas que o homo sapiens não mais compreende e, muito menos, domina. Ao “escapar ao controle”, a técnica vira um sujeito automático em si. Estamos ao sabor desse “escape”, a reboque.

3 HEIDEGGER, Martin. A questão da técnica. In: HEIDEGGER, Ensaios e Conferências, Vozes, Segunda Edição, 2002. p. 12

Quem quer que pense em restabelecer pactos vencidos se equivoca de modo fatal. Uma das características da modernidade consistiu e consiste em acelerar mudanças que não admitem recuo ao estado anterior. O que terá sido a modernidade se não uma expansão da entropia na vida social e, por decorrência, nas veias da História?4 Não há caminho de volta. Isso a que temos, precariamente, chamado de “homem”, esse conceito pernóstico, já está fora da equação.

A propósito, não me convence o modo como Heidegger se refere a essa categoria, o tal “homem”. Se ouço a minha intuição, entendo que o alegado “homem” encerra um ente que inexiste: o substantivo comparece às páginas de “A questão da técnica” na mera condição de projeção vazia. Quem move a técnica, quem a faz deslanchar não é o “homem”, esse organismo animal, ou essa presunção metafísica, mas o discurso que se edifica por meio do “homem”, instrumentalizando-o. A distinção entre os dois entes, entre “homem” e discurso, muda tudo

4 Eu mesmo tratei disso num pequeno livro. BUCCI, Eugênio. Incerteza, um ensaio: como pensamos a ideia que nos desorienta (e orienta o mundo digital) / Eugênio Bucci. - 1. ed. - Belo Horizonte, MG : Autêntica Editora, 2023. - (Ensaios / coordenação Ricardo Musse). ISBN 978-65-5928-268-5. P. 75-6.

Ao que você vai perguntar: mas o que é discurso? Em termos  preliminares – e este aqui é um texto preliminar – posso adiantar que o discurso não é outra coisa que não a ideologia materializada em linguagem para ordenar o mundo. Ou, se você quiser, a ideologia materializada em letra. Se olharmos o mesmo ponto de trás para a frente, poderíamos dizer que a ideologia age por meio do discurso social (este, por sua vez, não existe sem ela). Nas palavras de Claude Leford, a ideologia é “um sistema de representações que se mantém por si e converte em condições universais da experiência as condições de fato da prática social e do discurso social”.5 Eis o ponto.

O discurso fala o homem, isto sim, e aí é que está: falando o homem, o discurso sempre se comportou como o embrião da técnica, embrião editado pela ideologia, desde antes de a técnica nascer. No discurso, bem como na técnica, encontramos algo de inexorável, que não se subordina a homem nenhum. Antes, o que há é precisamente o contrário.

Isto posto, eu me aproximo do final. Falei um pouco de técnica, falei de discurso, ou da forma discurso, e, antes de terminar esta sinopse, devo adiantar um toque a respeito do capital. Hoje, temos de pensar nele como uma costura entre a técnica e o discurso – sobretudo o discurso em formas um pouco mais definidas, como o discurso do mercado ou o discurso da tecnociência. Os três se fundiram de modo indissolúvel.

“O que são as mutações?”, pergunta-se Adauto Novaes, no ensaio que abre este pequeno volume. Ele mesmo responde: “Em poucas palavras, entendemos as mutações como a criação de outro estado das coisas a partir da junção do Capital com a Técnica.” Eu também, em um livro recente, me dediquei a olhar para essa fusão:

5 LEFORT, Claude. Les formes de L’Histoire – Essais d’anthropologie et politique, Paris: Gallimard, 1978, p. 234. A relação inextrincável entre ideologia materialidade e discurso pode ser vista também em ORLANDI, Eni. Terra à Vista, São Paulo: Cortez, 1990. p. 16: “A ideologia tem, pois, uma materialidade e o discurso é o lugar em que se pode ter acesso a essa materialidade.”

“Não estamos divisando apenas uma obra da engenharia ou da ciência. Acima disso, o que se insinua ou se escancara diante de nós são as relações capitalistas de produção automatizadas e autonomizadas.”6

A técnica moderna, para lembrar a velha expressão de Heidegger, dá-se a ver como um discurso de chips, bits e genes que aprendeu a falar sozinho, sem ter de lançar mão das cordas vocais que integram o corpo humano. Aqui, falar sozinho significa fazer falar o capital, ou vice-versa: é o capital quem faz a Inteligência Artificial falar sozinha.

Em 2008, isso me rondava a imaginação em outros termos:

“E quanto ao capital? O que dizer dele segundo a perspectiva de que talvez algo dele sobreviva à forma atual da espécie humana? Não seria o capital uma “forma de vida” puramente informacional, ou pelo menos parte constitutiva de outra possível forma de vida que nos seria superior?”

Estamos convidados a divisar um mundo em que a sociedade se esfacela e, não obstante, as relações sociais vigoram mais brutas do que nunca.

6 BUCCI, Eugênio. A razão desumana – cultura e informação na era da desinformação inculta (e sedutora). Belos Horizonte: Editora Autêntica, 2025. P. 20. ISBN 978-65-5928 582-2 7 BUCCI, Eugênio. Aquilo de que o humano é instrumento descartável: sensações teóricas. In: NOVAES, Adauto (org.). A condição humana – as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC SP. 2009. ISBN: 978-85-220-1060-8 (Agir) – 978-85-98112-90-9 (Edições SESC SP). P. 375-394. O trecho citado se encontra na página 389. As palestras desse ciclo foram feitas em 2008

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